sábado, 15 de agosto de 2026

RESENHA - Tre novelle (Luigi Pirandello)

 


“Tutte le donne della terra eran diventate per lui un incubo: tante nemiche della sua pace.”


Primeira vez que leio Luigi Pirandello. Na verdade, tem sido a primeira vez que leio quase todo autor italiano que compartilho por aqui. Está sendo uma introdução de literatura italiana e cultura para mim.



Novamente um livro de contos. Dessa vez 3 contos curtos. Os contos são engraçados, retratam cenas do dia a dia, focando em momentos decisivos da vida adulta tendo o amor como tema central.


“Allegra! Oh! Che fai? Oggi non si piange... Sai come se dice, cento lire di malinconia non pagano il debito d’un soldo.”



O autor é um dos mais prestigiados da literatura italiana, principalmente no teatro. Tem até um Nobel de Literatura. Autor de centenas de contos, dele ainda quero ler as obras mais conhecidas: Seis Personagens à Procura de um Autor e Um, nenhum e cem mil.


Esse livro é uma edição bilíngue, feita para pessoas que como eu estão aprendendo italiano. Contém os contos: a saída do viúvo, a primeira noite e com outros olhos. Não possui tradução no Brasil, porém no país existe outras coletâneas de contos do autor.



“Solo donna Nela, la sorella del Chirico, più rubiconda che mai, non era commossa: diceva d’aver assistito a dodici sposalizii e che le lagrime alla fine, come i confetti, non erano mancati mai.”


Pouco a pouco vou melhorando minha leitura em italiano... Por enquanto estou lendo apenas livros com poucas páginas. Isso me ajuda a não ficar bloqueado na leitura. Em breve quero tentar ler romances longos.



“Vittore Brivio trattava la moglie come una bambina non d'altro capace che di quell'amore ingenuo e quasi puerile di cui si sentiva circondato, spesso con fastidio, e al quale si era proposto di prestar solo attenzione di tempo in tempo, mostrando anche allora una condiscendenza quasi soffusa di lieve ironia, come se volesse dire:

<< Ebbene, via! per un po' diventerò anch'io bambino con te: bisogna fare anche questo, ma non perdiamo troppo tempo!»”



Sobre o autor


Luigi Pirandello (1867-1936), Prêmio Nobel de Literatura em 1934, nasceu em Agrigento, na Sicília, transferindo-se mais tarde para Roma, onde deu início à sua carreira literária. É autor de uma vasta e variada obra, centrada na temática da identidade e numa singular visão do mundo, fortemente irônica e satírica. Escreveu um grande número de novelas, coligidas sob o título de Novelle per un anno (ao todo 15 volumes de 1922 a 1937); sete romances, entre os quais figura o célebre O Falecido Mattia Pascal (1904); e inúmeras peças teatrais, reunidas sob o título programático Maschere Nude (1918-1937) e entre as quais se incluem Sei Personaggi in Cerca d’autore (1921) e Questa sera si recita a soggeto (1930). A obra de Pirandello é uma das mais representativas da literatura moderna e foi influência decisiva para autores como Jean-Paul Sartre, Samuel Beckett, Eugène Ionesco, Jean Genet ou Eugene O’Neill.



Sinopse em francês


Tre novelle (Trois nouvelles) de Luigi Pirandello regroupe souvent trois récits célèbres de l'auteur italien : L'uscita del vedovo (La Première Sortie du veuf), Prima notte (Première nuit) et Con altri occhi (Avec d'autres yeux). Ces textes explorent les thèmes chers de l'auteur : la jalousie, le deuil et la complexité des apparences.


Les trois nouvelles


L'uscita del vedovo (La Première Sortie du veuf) : Teodoro Piovanelli se trouve libéré par la mort de sa femme excessivement jalouse, mais il a perdu le goût de la vie et le contact avec les autres. Cette première sortie l'amène à se questionner sur sa liberté retrouvée.



Prima notte (Première nuit) : Le jour de son mariage avec un homme beaucoup plus âgé, une jeune fille pleure un amour de jeunesse mort noyé. Son nouvel époux, lui, reste hanté par le souvenir de sa première femme.



Con altri occhi (Avec d'autres yeux) : En préparant les affaires de voyage de son époux, Anna découvre la photographie de la première femme de celui-ci. Cette découverte bouleverse sa vision de son couple et de son mariage.




domingo, 2 de agosto de 2026

RESENHA - Beautiful world, where are you (Sally Rooney)

 

"Eu estava cansada, era tarde, quase dormia no banco de trás do táxi quando me lembrei de um jeito esquisito que, aonde quer que eu vá, você está comigo, assim como ele, e, quando vocês dois vierem, o mundo será belo."


Nosso club de leitura dedicado a ler literatura contemporânea escrita em língua inglesa está de volta. Belo mundo, onde você está foi a leitura da vez. Li bem rápido, sinal de que gostei. É o livro mais odiado da autora, e mesmo tendo lido muita critica negativa, eu discordo totalmente.



“Vai ver que certos tipos de dor, em fases de formação da vida, ficam gravados para sempre no senso de identidade da pessoa.”


Da Sally Rooney li Normal People em 2020 e aqui novamente posso ver que o texto tem muito da autora. Ela traz excelentes citações, uns capítulos de palestrinha e outros de diálogos hot, aleatoriamente organizados. Gostei muito desde o começo, principalmente as partes mais introspectivas com fluxo de consciência. Ela disseca as relações humanas tão bem, de forma tão real que os personagens parecem nossos conhecidos.



" Às vezes é muito difícil entender o sentido da existência quando as coisas da vida que considero significativas acabam não significando nada ".


É um livro que não dá para passar por ele sem sentir nada. Provoca várias reflexões, é atual, não consola, incomoda. Acho que o final deixa um pouco a desejar, e talvez o estilo narrativo não tenha agradado muita gente. Mas é o que torna a obra ainda mais única. Sem contar que a prosa dela é muito bonita, e eu super adorei os detalhes e as descrições. Super recomendo!



“Talvez a gente tenha nascido para amar e se preocupar com quem a gente conhece, para continuar amando e se preocupando mesmo quando temos coisas mais importantes para fazer.”


Pretendo ler outros livros da autora, sendo eles:

Conversations with Friends (2017), Conversas entre amigos, que virou série em 2022.

Normal People (2018), Pessoas Normais, virou série em 2020 e li no mesmo ano.

Beautiful World, Where Are You (2021), Belo Mundo, onde você o que acabei de ler.

Intermezzo (2024).



Citações


“It's so hard to see the point sometimes, when the things in life I think are meaningful turn out to mean nothing, and the people who are supposed to love me don't.”


"And Alice, I do feel like a failure, and in a way my life really is nothing, and very few people care what happens in it. It's so hard to see the point sometimes when the things in life I think are meaningful turn out to mean nothing, and the people who are supposed to love me don't."



"Life is more changeable than I thought. I mean a life can be miserable for a long time and then later happy. […] And I want that - to prove that the most ordinary thing about human beings is not violence or greed but love and care."


"I just want everything to be like it was, Eileen said. And for us to be young again and live near each other, and nothing to be different. Alice was smiling sadly. But if things are different, can we still be friends? she asked. Eileen put her arm around Alice's shoulders. If you weren't my friend I wouldn't know who I was, she said. Alice rested her face in Eileen's arm, closing her eyes. No, she agreed. I wouldn't know either. And actually for a while I didn't".



“it’s not the life i used to imagine for myself either (…) but it’s the life i have, the only one.”


"Digo a mim mesma que quero ter uma vida feliz, e que as circunstâncias para essa felicidade simplesmente ainda não surgiram. Mas e se não for verdade? E se sou eu que não me permito ser feliz? Por que tenho medo, e preciso chafurdar na autocomiseração, ou não acredito merecer coisas boas, ou alguma outra razão. Sempre que algo de bom acontece comigo me pego pensando quanto tempo será que vai demorar para a situação degringolar. E praticamente quero que o pior aconteça logo, rápido, e se possível imediatamente, assim pelo menos não preciso ficar ansiosa."



“Na verdade, meu problema é que fico irritada com todo mundo por não ter todas as respostas, quando eu também não tenho nenhuma. E quem sou eu para pedir humildade e franqueza dos outros? O que eu já dei ao planeta para pedir tanto em troca? Eu poderia me desintegrar em um monte de poeira que o mundo não daria a mínima, e é assim que tem que ser”


"Talvez seja tarde demais para mudarmos quem nos tornamos."



Sinopse em inglês



Alice, a novelist, meets Felix, who works in a warehouse, and asks him if he’d like to travel to Rome with her. In Dublin, her best friend, Eileen, is getting over a break-up, and slips back into flirting with Simon, a man she has known since childhood. Alice, Felix, Eileen, and Simon are still young;but life is catching up with them. They desire each other, they delude each other, they get together, they break apart. They have sex, they worry about sex, they worry about their friendships and the world they live in. Are they standing in the last lighted room before the darkness, bearing witness to something? Will they find a way to believe in a beautiful world?



Sinopse em português



Uma das vozes mais originais da ficção contemporânea, Sally Rooney escreve sobre amizade, amor e dúvida em seu terceiro romance. Lançamento mundial. "O fenômeno literário da década." – The Guardian Alice conhece Felix pelo Tinder. Ela é romancista, ele trabalha num armazém nos subúrbios de uma pequena cidade costeira da Irlanda. No primeiro encontro, enquanto os dois tentam impressionar, a fagulha de algo mais aparece. Em Dublin, Eileen está tentando superar o término de seu último relacionamento enquanto precisa lidar com a falta da melhor amiga, que se mudou para o litoral. Ela acaba voltando a flertar com Simon, um homem mais velho que acompanha sua vida há tempos. Alice, Felix, Eileen e Simon ainda são jovens, mas sentem cada vez mais a pressão do passar dos anos. Eles se desejam, se iludem, se amam e se separam. Eles se preocupam com sexo, com amizade, com os rumos do planeta e com o próprio futuro. Seriam eles as últimas testemunhas do ocaso? Eles vão conseguir encontrar uma forma de viver mais uma vez em um belo mundo? Com uma prosa única e brutal, Sally Rooney constrói mais um romance inigualável sobre o que significa amadurecer sem deixar a si mesmo para trás.


sábado, 1 de agosto de 2026

Resenha - Lettre à D. (André Gorz)

 

Pois é impossível explicar filosoficamente por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa, excluindo todas as outras”


Um livro sobre o amor. Gostei logo na primeira página. Muito tocante. Texto bonito, curtinho, simples e com belíssimas citações. Escrito como se fosse uma carta, de texto corrido, formando um longo relato da relação entre o autor e sua esposa. Pode ser lido de uma só vez.



É isto: a paixão amorosa é um modo de entrar em ressonância com o outro, corpo e alma, e somente com ele ou ela. Estamos aquém e além da filosofia”



Lettre à D. - Histoire d'un amour é uma ode ao amor. Ganhei o livro de presente do @, após ele ter visto que li “Todos os Homens são Mortais”, da Simone de Beauvoir, já que Goez foi igualmente contemporâneo e discípulo de Sartre.




É preciso aceitar ser finito: estar aqui e em nenhum outro lugar, fazer isto e não outra coisa, agora e não sempre ou nunca [...], ter apenas esta vida”


Surpreso de ter encontrado tradução no Brasil (Carta a D. - História de um amor). Acho que por conta de o autor ser muito conhecido por seus trabalhos nas áreas da filosofia e sociologia. Inclusive esse foi o último trabalho dele. Um texto sobre paixão, militância e uma vida juntos de quase sessenta anos. Fiquei comovido ao terminar a leitura e descobrir que fim teve o autor e sua esposa.



No final das contas, só uma coisa me era realmente essencial: estar com você. Eu não posso me imaginar escrevendo se você não mais existir. Você é o essencial sem o qual todo o resto, importante apenas porque você existe, perderá o sentido e a importância”


André Gorz, Folio, 2009, 96 páginas.


Sinopse em português


Uma das declarações de amor mais conhecidas e emocionantes de nosso tempo, este livro é também uma afirmação comovente de companheirismo entre duas pessoas apaixonadas. "Você está para fazer 82 anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que 45 quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz 58 anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca." Assim André Gorz inicia sua carta de amor a Dorine, mulher ao lado de quem ele passou a vida e que há alguns anos sofria de uma doença degenerativa incurável. Como um dos principais filósofos do pós-guerra francês, Gorz escreveu inúmeros livros influentes, mas nenhuma de suas obras será tão amplamente lida e lembrada quanto esta carta simples e bela, em que ele rememora tanto a história de companheirismo, amor e militância do casal como a trajetória intelectual que percorreram juntos. Um ano após a publicação de Carta a D., um bilhete encontrado na casa onde moravam fez as vezes de pós-escrito à narrativa: André e Dorine tiraram a própria vida juntos, numa renúncia comovente a viver sozinhos.



Sinopse em francês




"Tu vas avoir quatre-vingt-deux ans. Tu as rapetissé de six centimètres, tu ne pèses que quarante-cinq kilos et tu es toujours belle, gracieuse et désirable. Cela fait cinquante-huit ans que nous vivons ensemble et je t'aime plus que jamais. Je porte de nouveau au creux de ma poitrine un vide dévorant que seule comble la chaleur de ton corps contre le mien." André Gorz revient avec cinquante ans de recul sur les années décisives de son histoire. Il restait beaucoup à dire. Car ce n'était pas la sienne seulement. Biographie de l'auteur André Gorz, de son vrai nom Gérard Horst, est né à Vienne en février 1923. Ecrivain et philosophe, il a notamment publié Le traître (1958), préfacé par Sartre, Adieux au prolétariat : au-delà du socialisme (1980), et L'Immatériel : connaissance, valeur et capital (2003). Parallèlement à son oeuvre philosophique, André Gort a poursuivi une carrière de journaliste, à L'Express, puis au Nouvel Observateur à partir de 1981, où il écrivit sous le pseudonyme de Michel Bosquet. Il est mort en septembre 2007.





Citações



«Tu vas avoir quatre-vingt-deux ans. Tu as rapetissé de six centimètres, tu ne pèses que quarante-cinq kilos et tu es toujours belle, gracieuse et désirable. Cela fait cinquante-huit ans que nous vivons ensemble et je t'aime plus que jamais. Je porte de nouveau au creux de ma poitrine un vide dévorant que seule comble la chaleur de ton corps contre le mien»



Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher.”



"Até onde consigo lembrar, eu sempre procurei não existir. Você deve ter trabalhado anos a fio até me fazer assumir minha existência"



"Quando te conheci sabia desde o início que éramos feitos um para compreender o outro"



Quando tudo tiver sido dito, tudo ainda ficará por dizer, sempre restará tudo a dizer, em outras palavras, é-o dizer que importa, não o dito




Que o amor é o fascínio recíproco de duas pessoas por aquilo que elas têm de menos dizível”



Você era o complemento da irrealização do real”



Só uma coisa me era realmente essencial: estar com você. Eu não posso me imaginar escrevendo se você não existir. Você é o essencial sem o qual todo o resto, importante apenas porque você existe, perderá o sentido e a importância.”



"Preciso reconstituir a história do nosso amor para compreender seu significado. Ela foi o que nos permitiu nos tornarmos quem somos, um pelo outro. Escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.”



Você foi a primeira mulher que consegui amar de corpo e alma, com quem eu me sentia em ressonância profunda; meu primeiro amor verdadeiro, para dizer tudo. Se eu fosse incapaz de amá-la de verdade, nunca poderia amar ninguém. Encontrei palavras que nunca soubera pronunciar; palavras para lhe dizer que eu queria que permanecêssemos juntos para sempre. Mas também acho, que veio de um lugar de culpa. ‘Amar um escritor é amar que ele escreva’, dizia você. Então escreva!”’



"Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro. Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos."



"Você me dava acesso a uma dimensão de alteridade suplementar - a mim, que sempre rejeitei toda identidade e juntei uma identidade na outra, sem que nenhuma fosse realmente a minha."



"Eu tinha a impressão de construir com você um mundo protegido e protetor."



"Não tínhamos um lugar assegurado no mundo, e só teríamos aquele que fizéssemos para nós."



"Tinha algo de você em tudo o que você fazia."



"Eu admirava sua segurança, sua confiança no futuro, sua capacidade de captar os instantes de felicidade que se ofereciam."



"Você tinha uma cumplicidade contagiosa com tudo o que é vivo, e me ensinou a olhar e a apreciar o campo, as árvores e os animais. Você descobriu para mim a riqueza da vida, e eu a amava através de você."



"Você me deu toda sua vida e tudo de si; e eu gostaria de poder lhe dar tudo de mim durante o tempo que nos resta."



"O mundo está vazio, não quero mais viver."



Mas nada disso dá conta da ligação invisível pela qual nós nos sentimos unidos desde o início. Por mais que tivéssemos sido profundamente diferentes, mas eu não deixava de sentir que alguma coisa fundamental era comum a nós, um tipo de ferida original”



Você não tinha nenhum lugar que fosse seu no mundo dos adultos. Estava condenada a ser forte porque todo o seu universo era precário. Eu sempre senti, ao mesmo tempo, a sua força e a sua fragilidade subjacente. Eu gostava da sua fragilidade superada, admirava a sua força frágil. Nós éramos, eu e você, filhos da precariedade e do conflito. Fomos feitos para nos proteger mutuamente contra ambos, e precisávamos criar juntos, um pelo outro, o lugar no mundo que originalmente nos tinha sido negado. Por isso, no entanto, seria necessário que o nosso amor fosse também um pacto para a vida inteira.”



Eu estava consciente de precisar de você para encontrar o meu caminho, de só poder amar você.”



Lembro de ter escrito a E. que no final das contas, só uma coisa me era realmente essencial: estar com você. Eu não posso me imaginar escrevendo se você não mais existir. Você é o essencial sem o qual todo o resto, importante apenas porque você existe, perderá o sentido e a importância.”