domingo, 29 de março de 2026

RESENHA – O Colibri - Sandro Veronesi


Sinto que todas as coisas supérfluas me abandonam, e me dou conta de que, se você tirar da minha vida todas as coisas supérfluas, a única que sobra é você.”


Quando não leio diretamente em italiano, tento ao menos ler uma tradução, e para falar a verdade, esse daqui foi um pouco difícil de ler, mesmo sendo uma tradução para o francês, idioma que estou acostumado a ler. Muitas vezes o texto vem sem parágrafos, poucos pontos, apenas virgulas. Tem momentos que parece um fluxo de pensamentos, do próprio autor e não dos personagens.



"Todo o amor que se espalhou pelo mundo, todo o tempo desperdiçado e toda a dor sentida: tudo era força, era potência, era destino."


Achei interessante o fato de ser um livro escrito a partir de cartas, e-mails, mensagens de texto, WhatsApp, ligações telefônicas, poemas e todo tipo de linguagem. O livro inteiro tem uma linha temporal bem longa, passado, presente e projeções para um futuro próximo, que não é organizada então é um pouco difícil de acompanhar. Talvez se fosse um pouco mais linear seria melhor. Sem contar que o livro é bem triste/ mórbido. Uma verdadeira loucura, com uma história como nunca tinha visto. Muito original. Apenas o final poderia ter sido menos absurdo...



"A mentira é um câncer e se propaga, e se enraíza, e se confunde com a própria substância que corrompe - mas ele havia feito algo pior: acreditara nela."


A narrativa habilidosa de Sandro Veronesi conseguiu transformar o ordinário em algo extraordinário. Num vai e vem narrativo que desde o início prende nossa atenção. Em seguida intercala uma série de acontecimentos que parece nunca terminar. Um verdadeiro fluxo de recordações. E nesse meio tem várias coisas que não adicionam nada a narrativa, mas estão ali por alguma razão. Além disso, o texto é repleto de passagens belíssimas, tanto originais quanto citações de outros livros, músicas e até filmes. Muitas referências. Gosto disso em um livro.



O Colibri, publicado em 2019, é uma história sobre continuar a todo custo. Descobri que também tem um filme. Talvez um dia eu assista, também senti vontade de ler outros livros dele. Sem dúvidas é um livro que no final todo leitor terá algo para falar, bom ou ruim.


O livro foi vencedor do Prêmio Strega 2020, um dos mais importantes da Itália. Apenas dois autores ganharam duas vezes o Prêmio Strega, Sandro Veronesi é um deles. A primeira vez foi em 2006 com "Caos calmo". Antes somente Paolo Volponi havia conquistado o prêmio por duas vezes em 1965 e de novo em 1991. Foi adaptado para o cinema em 2022, com mesmo título (Il colibri), direção de Francesca Archibugi e Pierfrancesco Favino no papel de Marco. No Brasil foi publicado em 2024 pela Editora Autêntica e tradução de Karina Jannini.



CITAÇÕES


“… Marco não sente dor. Sentiu muito em sua vida. Uma vida cheia de dor, sem dúvida. Mas toda a dor sentida nunca o impediu de aproveitar momentos como este, em que tudo parece perfeito - e de momentos como este, sua vida também foi plena.”


O colibri emprega toda sua energia em ficar parado.”


Tentei colocar uma música bem bonita no despertador, em vez do toque, mas despertar continua sendo assustador. A máquina do tempo existe.”



"Eu te amei muito, de verdade; por quarenta anos, você foi a primeira e a última coisa em que pensei em cada dia da minha vida. Mas a agora não é mais assim, porque meu primeiro pensamento é para ela, e o meu último também é para ela, e no meio existem apenas outros pensamentos para ela. Somente assim me é possível vive neste momento."


Viu só, papà? Começamos bem. O Homem do Futuro é uma mulher.”


Assim, à exceção de Giacomo, prostrado no sofá sob o efeito de uma potente combinação de rum e Nutella, a partir de determinado momento, essa noite especial encontra quatro quintos da família Carrera deitados na areia, em pontos diferentes da mesma costa, acariciados pelo mesmo marulho e visitados por diferentes estados de felicidade. Letizia e Probo, em San Vincenzo, pela felicidade gerada pela loucura que acaba de ser cometida, destinada - e eles sabem disso - a não se repetir nunca mais e, por isso, realmente inigualável; Marco, em Baratti com Luisa, pela felicidade ainda mais inigualável, oferecida pelos lábios inchados de tantos chupões e pela certeza - ilusória, infelizmente; de fato, mais ilusória do que nunca -, de que esses chupões se repetirão muitas e muitas vezes; e, por fim, Irene, em Bolgheri, a mais deitada de todos, a mais feliz, com a mente apagada, já sem aflições, o corpo vazio, já sem posições, restituída pelos Redemoinhos à superfície como um joguete das ondas na linha de rebentação, onde o mar Tirreno central, com a baixa da maré, fará com que ela seja encontrada.”



“(...) pela primeira vez na vida, viu-se com muito tempo livre, e o tempo livre é um verdadeiro pesadelo para as pessoas instáveis.”


Se o senhor cuidar de Miraijin com um vazio no cora-ção, transmitirá esse vazio a ela. Se, ao contrário, tentar preencher esse vazio, e não importa se vai conseguir ou não, basta que tente preenchê-lo, então, transmitirá a ela esse esforço, e esse esforço, simplesmente, é a vida.”


Foi uma iluminação: você realmente é um colibri. Mas não pelas razões pelas quais te deram esse apelido: você é um colibri porque, como o colibri, põe toda a sua energia em permanecer parado. Setenta batidas de asas por segundo para permanecer onde já está. Você é incrível nisso. Consegue parar no mundo e no tempo, consegue parar o mundo e o tempo ao seu redor; às vezes, consegue até voltar no tempo e encontrar o tempo perdido, assim como o colibri é capaz de voar em marcha a ré. Por isso é tão bonito estar perto de você.”



No entanto, acima de tudo, esse estar sempre parado, fazendo todo esse esforço, às vezes não é a cura, é a ferida. Por isso é impossível ficar perto de você.”


"Onde nada vales, nada podes querer".


"Quantas pessoas estão sepultados dentro de nós?"



'Trabalhamos com os desejos, com os prazeres. Porque os desejos e os prazeres sobrevivem até mesmo na situação mais desastrosa. Somos nós que os censuramos. Atingidos pelo luto, censuramos nossa libido quando é justamente ela que pode nos salvar. Você gosta de jogar bola? Pois então, jogue. Gosta de caminhar à beira-mar, comer maionese, pintar as unhas, capturar lagartixas, cantar? Faça-o. Isso não vai resolver nenhum dos seus problemas, mas também não vai agravá-los e, nesse meio tempo, seu corpo se livrará da ditadura da dor, que quer mortificá-lo'.


"O fato é que é fácil entender que haja um motivo por trás do movimento, mas é mais difícil entender que haja algum também por trás da imobilidade. [...] Assim, não há o que fazer; no final, quem se move é corajoso, e quem permanece parado é medroso [...] Por isso, fico feliz que tenha se dado conta de que é preciso ter coragem e energia também para ficar parado."


"Há seres que passam a vida se esfalfando com o objetivo de alcançar, conhecer, conquistar, descobrir, melhorar, para depois perceberem que não fizeram outra coisa a não ser buscar a vibração que os lançou no mundo: para eles, o ponto de partida e o ponto de chegada coincidem. Há outros também que, mesmo estando parados, percorrem uma estrada longa e cheia de aventuras, pois é o mundo que desliza sob seus pés, e terminam muito longe de onde haviam partido."



"Olhar é tocar à distância; os olhares são corpo. De passividade, isso não tem nada."


"Toda dor sentida nunca o impediu de aproveitar momentos como este, em que tudo parece perfeito - e de momentos como este, sua vida também foi plena."


"Quem nunca passou pela situação de sentir-se repentinamente humilhado quando a pessoa com a qual está falando lança um olhar de relance ao relógio? O que muda e torna os olhares das pessoas mais ou menos sustentáveis é a quantidade de atenção que transmitem."



Deveria ser de conhecimento geral - mas não é - que o destino das relações interpessoais é decidido no início, de uma vez por todas, sempre, e que, para saber antecipadamente como as coisas vão terminar, basta olhar para como começaram. Com efeito, quando uma relação nasce, há sempre um momento de iluminação no qual também se consegue vê-la crescer, estender-se no tempo, tornar-se o que se tornará e acabar como acabará - tudo ao mesmo tempo. É possível vê-la bem porque, na realidade, tudo já está contido no início, como a forma de todas as coisas está contida em sua primeira manifestação. Mas se trata, precisamente, de um momento, e então essa visão inspirada desaparece ou é recalcada, e somente por isso as histórias entre as pessoas produzem surpresas, danos, prazer ou dor imprevista. Nós sabíamos disso, por um lúcido, breve momento, já sabíamos no início, mas depois, pelo resto de nossa vida, não soubemos mais. Como quando nos levantamos da cama, à noite, e andamos às cegas em meio à escuridão do quarto para ir ao banheiro, e nos sentimos perdidos, e acendemos a luz por meio segundo, e logo em seguida a apagamos, e esse clarão nos mostra o caminho, mas só pelo tempo necessário para ir dar nossa mijadinha e voltar para a cama. Da próxima vez, estaremos perdidos de novo.”


Mas é verdade que, se uma história de amor não termina ou, como nesse caso, nem sequer começa, ela continuará a perseguir a vida dos protagonistas com sua ausência de coisas não ditas, ações não realizadas, beijos não dados: é sempre verdade (…)”. “(…) porque a mentira é um câncer e se propaga, e se enraíza, e se confunde com a própria substância que corrompe - mas ele havia feito algo pior: acreditara nela.”


Não, não existem olhares mais importantes e olhares menos importantes: quando são lançados, todos os olhares são um envolvimento, e é somente a coincidência dos eventos, ou seja, o acaso, a determinar suas consequências”.


Há seres que passam a vida se esfalfando com o objetivo de avançar, conhecer, conquistar, descobrir, melhorar, para depois perceberem que não fizeram outra coisa a não ser buscar a vibração que os lançou no mundo: para eles, o ponto de partida e o ponto de chegada coincidem. Há outros também que, mesmo estando parados, percorrem uma estrada longa e cheia de aventuras, pois é o mundo que desliza sob seus pés, e terminam muito longe de onde haviam partido: Marco Carrera era um destes. Àquela altura, estava claro: sua vida tinha um objetivo. Nem todas as vidas o tinham, mas a sua, sim. As dolorosas adversidades que a haviam marcado também tinham um objetivo, nada lhe acontecera por acaso.”


SINOPSE ITALIANO



Marco Carrera è il colibrì. La sua è una vita di continue sospensioni ma anche di coincidenze fatali, di perdite atroci e amori assoluti. Non precipita mai fino in fondo: il suo è un movimento incessante per rimanere fermo, saldo, e quando questo non è possibile, per trovare il punto d'arresto della caduta - perché sopravvivere non significhi vivere di meno. Intorno a lui, Veronesi costruisce un mondo intero, in un tempo liquido che si estende dai primi anni settanta fino a un cupo futuro prossimo, quando all'improvviso splenderà il frutto della resilienza di Marco Carrera: è una bambina, si chiama Miraijin, e sarà l'uomo nuovo. Dalla quarta di copertina Marco Carrera è il colibrì. La sua è una vita di continue sospensioni ma anche di coincidenze fatali, di perdite atroci e amori assoluti. Non precipita mai fino in fondo: il suo è un movimento incessante per rimanere fermo, saldo, e quando questo non è possibile, per trovare il punto d'arresto della caduta - perché sopravvivere non significhi vivere di meno.


SINOPSE PORTUGUÊS




Ambientado em Florença e em outras pequenas cidades italianas, O colibri é a história de quatro gerações da família Carrera. O ponto de vista é o de Marco, filho médico do casal Letizia e Probo, irmão de Irene e Giacomo, pai de Adele e avô de Miraijin. Marco Carrera é o colibri, um homem com uma habilidade quase sobrenatural de pairar, permanecer firme, sem perder o ânimo em meio ao caos de um mundo em constante transformação, de uma vida com alegrias, mas também coincidências fatais, perdas atrozes e amores absolutos. Sandro Veronesi constrói, de modo não linear, a saga familiar dos Carrera. A história, contada por meio de diversos gêneros – cartas, documentos, e-mails, chamadas telefônicas, conversas de WhatsApp -, transita por memórias que vão dos anos 1970 aos dias atuais, aventurando-se até a audaciosa projeção de uma década. Permeado por traições, incomunicabilidades, questões geracionais e de saúde mental, resiliência, superações, doenças, morte e amor, este é um romance emocionante sobre a necessidade de olhar para o futuro com esperança; um retrato da existência humana, das vicissitudes e dos caprichos que nos impulsionam e, em última instância, nos definem.


SINOPSE INGLÊS


Marco Carrera is 'the hummingbird,' a man with the almost supernatural ability to stay still as the world around him continues to change. As he navigates the challenges of life - confronting the death of his sister and the absence of his brother; taking care of his parents as they approach the end of their lives; raising his granddaughter when her mother, Marco's own child, can no longer be there for her; coming to terms with his love for the enigmatic Luisa - Marco Carrera comes to represent the quiet heroism that pervades so much of our everyday existence. A thrilling novel about the need to look to the future with hope and live with intensity to the very end.


SINOPSE FRANCÊS


« Tu es un colibri parce que, comme le colibri, tu mets toute ton énergie à rester immobile. Tu réussis à t'arrêter dans le monde et dans le temps, tu réussis à arrêter le monde et le temps autour de toi, et même parfois tu réussis à le remonter, à retrouver le temps perdu, tout comme le colibri est capable de voler à reculons. Et c'est pour cette raison qu'il fait si bon vivre près de toi. »C'est ainsi que Luisa, la femme qu'il aime et qui ne cesse de lui échapper, s'adresse à Marco Carrera. Mais qu'advient-il d'un homme lorsque la passion et la tragédie s'invitent ensemble au cœur d'une nuit d'été ?Une virtuosité narrative époustouflante. Le Figaro littéraire.Une épopée pleine de surprises. Les Inrockuptibles.Un final qui nous essore le cœur. Elle.Un monument de beauté. Le Journal du dimanche.Prix Strega. Prix du livre étranger France Inter / Le Point 2021.Traduit de l'italien par Dominique Vittoz.

terça-feira, 3 de março de 2026

RESENHA - Gaieté Parisienne (Benoît Duteurtre)


Le journaliste ne veut pas se démasquer trop vite, dans l'ignorance où il se trouve des dispositions de sa proie. L'impatience pourrait devenir source de ridicule...”


Livro engraçado como a muito tempo eu não tinha lido!

Realmente engraçado a ponto de me fazer interromper a leitura para rir.

Tem um humor particular. Um pouco sobre a vida gay em Paris nos anos 90.

Por isso é um livro datado, quase um documentário já que foi escrito na mesma época, o que o torna ainda mais interessante.



Nicolas avait fini par admettre qu'il n'accéderait jamais au parfait naturel de l'affranchi moderne.”


Capítulos inteiros apenas sobre a vida em Paris, que não adicionam quase nada a trama. Ainda assim, são belas descrições. Reais ao que vemos aqui.

Servem também para destacar a melancolia do personagem.

Mas em parte entendo essa forma de narrativa.

Neste livro Paris é tão protagonista quanto Nicolas.



Seul dans son appartement, Nicolas déprime. Il feuillette un livre de peintures sur Paris, l’hiver. La Seine était encombrée de glaçons ; des chevaux trottaient sur les quais enneigés où brûlaient des feux de bois; il faisait froid…”


Detalhe que em determinado momento o livro ficou hot demais.

Não estava esperando essa tomada de rumos. Definitivamente não tenho costume de ler coisas tão explicitas.

Talvez não seja a melhor opção de leitura para um público hétero, porém segue sendo um interessante passatempo.


Il se rendit dans la salle de bains où il s'aspergea de parfum. Il ne conserva qu'un pantalon et une chemise, afin d'écourter les préliminaires. Il arrangea le lit, l'éclairage. Puis il se posta sur le balcon afin de guetter, dans le grouillement du trottoir, tout junior de dix-huit ans correspondant aux mensurations de François. Lequel allait s'engouffrer dans l'immeuble et bondir vers lui ? Pour trois cents francs, Nicolas allait mener entièrement, souverainement, l'opération.”


Benoît Duteurtre escreve sem rodeios, cenas vividas e direto ao ponto.

O fato de ter poucos personagens é algo que aprecio em uma história, e aqui todos parecem estar conectados (até demais...).

Texto fluido, de capítulos curtos, li rapidinho.

Deu vontade de ler outros livros do mesmo autor.



Gaieté Parisienne

Benoît Duteurtre

1996

210 páginas


SINOPSE




Gaieté parisienne se déroule dans un drôle de Paris, à la fin du XXe siècle. Nicolas, intellectuel d'une trentaine d'années, s'efforce de séduire le jeune Julien, étudiant en gestion, très à l'aise dans la société moderne.




Des boîtes de nuit aux cités de banlieue, des berges de la Seine au bord de la mer, leur course-poursuite traverse un paysage étrange mêlant les vestiges du vieux monde aux entreprises de rénovation. "Le sens aigu du réel; l'art d'une description à la fois comique et froidement objective des situations collectives et des institutions sociales... J'aime, dans Gaieté parisienne, les grandes scènes collectives (on en voit rarement dans la littérature contemporaine).




Elles font de cette histoire intime l'image d'une époque et de sa folie." Milan Kundera

domingo, 1 de março de 2026

Resenha – Les Chandeliers (Sioux Berger)

 

Les belles histoires se perdent entre chaque génération, et c'est bien dommage.”  

Um livro sobre perfumes, como eu nunca tinha lido antes. Se bem que é algo bem francês...  

Perfumes, nostalgia, personagens de diferentes gerações. Fórmula perfeita.

Parece despretensioso e levinho, porém esconde muita coisa. 


Pourtant , ici, dans le jardin, rien n'avait changé. Augusta n'avait jamais quitté sa maison, elle n'avait jamais voyagé. Elle avait toujours préféré saluer le soleil depuis les marches de son escalier.” 


O livro possui duas linhas temporais, uma atualmente e outra durante a Segunda Guerra Mundial. Gostei muito dos capítulos narrados no passado e por diferentes personagens. 

Gostei principalmente do romance que tecnicamente não é romance, mas deixa a gente na torcida. Bonitas referências a obra Os Miseráveis de Victor Hugo. 

É aquele tipo de livro que facilmente viraria filme. Bem feel-good. 



"Il (Chérif) posa le livre sur la table de chevet et l'ouvrit avec délice. Dans le silence, la musique des mots reprit met le réconforta. Ce soir-là, il eut le sentiment d'avoir rencontré un nouvel ami, qui peu à peu comblait un vide immense. Il n'était plus seul.”  



Prosa com poucos personagens, dando tempo suficiente para apresentar cada um e suas particularidades. 

Final simples e comovente. 

Capítulos curtinhos, leitura leve, cativante, dava vontade de não parar mais. 

Sioux Berger escreve de uma forma encantadora, simples e bela. 



“ Pleure (David) si tu veux, la tristesse pourrit toujours, quand on la garde à l'intérieur. Faut que ça sorte.” 


Um dos poucos livros que tenho com dedicatória escrita pela própria autora, feita na ocasião do Festival do Livro de Montmorillon. Obrigado Benoît por isso.

Ah, detalhe: o livro tem cheiro de perfume. De verdade. Mesmo depois de quase um ano guardado na prateleira ainda consegui sentir um cheiro agradável emanando das páginas, tornando a experiência da leitura curiosamente sensorial. 

Trata-se de um livro recente, de 2024, e li diretamente em francês. Uma bela descoberta.




"Le soir, lorsqu'elle rentrait chez ses parents, elle tâchait toujours de raconter sa journée dans le détail au cours du dîner familial. Elle semblait attendre une reconnaissance qui n'arrivait pas. Sans être réellement hostiles, son père et sa mère écoutaient en hochant la tête. Pour Sandrine, leur neutralité en disait long. C'était ainsi qu'on s'exprimait dans son milieu : par des silences éloquents.”



@editions_du_rocher

@sioux.berger43


Citações



- Mais... votre plan de carrière? Je veux dire... vous n'avez pas plus d'ambition que ça?

- J'ai ma propre définition de ce mot, et je pense qu'elle est différente de la vôtre. Je regarde le chemin sur lequel je marche. S'il me plaît, si je m'y sens bien, alors je me moque bien du but."


" - Et moi j'aime bien votre compagnie, madame Vigouroux. Franchement, vous êtes étonnante... Votre vie me semble si... fraîche.

- Je vous remercie pour le compliment : les vieux qui s'amusent ont toujours l'air plus jeunes.”


" - Oh, je vois, une blessure ancienne, sans doute.

- Mais j'y suis pour rien...

- Alors, dis-lui que tu l'aimes.

Chérif haussa les sourcils en guise de réponse, comme si on venait de lui demander de traverser l'Atlantique à la nage.”




SINOPSE


Pourquoi Augusta, une vieille dame amoureuse de son jardin, voudrait-elle sacrifier sa maison et son atelier de bougies artisanales pour un projet de résidence dernier cri, les Villas Victor-Hugo ? Quel secret se cache derrière les épreuves qu'elle impose au jeune promoteur venu la démarcher ?


Le petit pavillon en meulière a traversé le siècle, et tous ceux qui franchissent sa grille en ressortent transformés : Sandrine, apprentie parfumeuse discrète mais un peu revêche, Chérif, agent immobilier et homme pressé, et David, un petit garçon courageux.



Autour d'eux, Augusta tisse doucement la toile de ses souvenirs. Face à la brutalité du monde, ce sont les senteurs et la joie de vivre qui s'imposent, réconciliant chacun avec sa mémoire.


Originaire d'Auvergne, vivant en région parisienne, Sioux Berger nous fait partager sa vision douce et nostalgique de la banlieue et des destins qui s'y croisent. Les Chandeliers est son troisième roman après Les Pentes et 1986 chez de Borée.





domingo, 15 de fevereiro de 2026

RESENHA - FIND ME (Continuação de Call me by your name de André Aciman)

 

"Tudo o que ele precisava fazer, quando a hora chegasse, e ele sabia que chegaria, era simplesmente procurar por mim e me encontrar"




Para concluir a história do Elio e do Oliver que começou lá em Call Me By Your Name (me chame pelo seu nome) e veio até aqui, Me encontre.

Livro sensível, que me conquistou logo nas primeiras páginas.

Estava com um pouco de receio dessa continuação, até por conta do final do livro 1 que parecia ter encerrado definitivamente a história dos dois (é bem pior que o final do livro).

Li porque queria mais do Elio e Oliver, mas não é bem disso que o livro mostra.

Então esperava algo bem diferente do que li, e depois que me acostumei com a novidade gostei bastante.

Por isso acho que é preciso ir sem expectativas, sem querer comparar com o primeiro livro.



o tempo é o preço que pagamos pela vida não vivida”



André Aciman divide este livro em quatro capítulos, sendo três deles dedicados a personagens distintos, com histórias que se cruzam no final. São quase como contos independentes.

Dessa vez temos uma história mais madura. Os percalços da vida sobrepujaram aquela paixão de verão. A vida seguiu, eles amadureceram.

Texto cheio de reflexões sobre o tempo, amor, paixão. Cheio de frases marcantes. Teve momentos que reli páginas inteiras. Sem contar que tem uma belíssima referência ao Brasil.




"O amor é fácil, falei. É a coragem para amar e para confiar que importa, e não é todo mundo que tem ambos."




Amei tudo, e achei de uma beleza muito rara.

Triste, romântico, verdadeiro. Texto muito lindo.

Acredito que algumas cenas, detalhes, e até descrições, o autor pegou do filme, que ficou ótimo e apenas melhorou o que já era o livro.

Foi um ótimo começo para 2026, que demorei a ler apenas por conta das férias, pois a partir da segunda parte em diante li em questão de dias.

Os diálogos são incrivelmente imersivos e a forma despreocupada como as revelações são apresentadas transformam totalmente a experiência da leitura.




É por isso que eu acho que todas as vidas são condenadas a permanecer inacabadas. Essa é a verdade deplorável com a qual todo mundo precisa conviver. Chegamos ao fim e nossa vida não se conclui, não chega nem perto disso! Deixamos por toda parte projetos que mal começamos, questões mal resolvidas. Viver significa morrer com vários arrependimentos entalados na garganta. Como diz o poeta francês: Le temps d'apprendre à vivre il est déjà trop tard, até aprendermos a viver, já é tarde demais.”



Citações favoritas


Besides, how long ago was it?" he asked.

" Fifteen years."

I knew my answer would leave him totally stumped.

Suddenly, he stopped asking and went silent. As I expected, he had not figured that so many years could go by and leave me still attached to someone who had become an invisible presence.

"It belongs to the past," I said, trying to make amends.

"Nothing belongs to the past." But then he right away asked: "You still think of him, don't you?"

I nodded because I did not want to say yes.

"Do you miss him?"

"When I am alone-sometimes, yes. (...).



RESENHA – inglês



No novel in recent memory has spoken more movingly to contemporary readers about the nature of love than André Aciman’s haunting Call Me by Your Name. First published in 2007, it was hailed as “a love letter, an invocation . . . an exceptionally beautiful book” (Stacey D’Erasmo, The New York Times Book Review). Nearly three quarters of a million copies have been sold, and the book became a much-loved, Academy Award–winning film starring Timothée Chalamet as the young Elio and Armie Hammer as Oliver, the graduate student with whom he falls in love. In Find Me, Aciman shows us Elio’s father, Samuel, on a trip from Florence to Rome to visit Elio, who has become a gifted classical pianist. A chance encounter on the train with a beautiful young woman upends Sami’s plans and changes his life forever. Elio soon moves to Paris, where he, too, has a consequential affair, while Oliver, now a New England college professor with a family, suddenly finds himself contemplating a return trip across the Atlantic. Aciman is a master of sensibility, of the intimate details and the emotional nuances that are the substance of passion. Find Me brings us back inside the magic circle of one of our greatest contemporary romances to ask if, in fact, true love ever dies.



RESENHA – português


Samuel está a caminho de Roma para encontrar seu filho, Elio, agora um pianista renomado. O acaso, no entanto, se encarrega de adiar a reunião familiar e faz com que Samuel desembarque na cidade eterna acompanhado de um novo amor e cheio de planos para novas temporadas em sua casa de veraneio. Elio logo se muda para Paris, onde vive mais um romance, enquanto Oliver, agora pai de família e professor na Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, cogita enfim cruzar de novo o Atlântico. O que o move inesperadamente são os primeiros acordes de uma música que o transporta no tempo para dias de idílio na Itália. Nesta retomada fascinante e tão aguardada da jornada de Elio e Oliver, André Aciman revisita seus personagens com a mesma delicadeza e pungência de Me chame pelo seu nome, trazendo-nos de volta ao relato do que há de mais perene em matéria de sentimento. Dos detalhes íntimos às nuances emocionais, Me encontre nos mostra do que é feita a substância da paixão e nos pergunta se, de fato, um amor verdadeiro pode perecer.