quinta-feira, 14 de maio de 2026

RESENHA - LA BELLA ESTATE (Cesare Pavese)


 "A quei tempi era sempre festa. Bastava uscire di casa e attraversare la strada, per diventare come matte, e tutto era bello, specialmente di notte ..."



Seguindo com minhas tentativas de ler em italiano. Excelente livro para os dias ensolarados. Tem muito daquele gostinho de dia de verão. No Brasil é traduzido como "O belo verão", idêntico ao título original.



Achei um texto atual para a época que foi escrito, bem maduro, e talvez por isso, apesar de ter sido finalizado em 1940 só foi publicado em 1949. O final na verdade é apenas um recorte temporal, o que é bem bacana para uma história que acontece praticamente em uma estação do ano e em um momento da vida.



“Tina ch’era uscita zoppa dall’ospedale e in casa non aveva da mangiare, anche lei rideva per niente, e una sera, trottando dietro gli altri, si era fermata e si era messa a piangere perché dormire era una stupidaggine e rubava tempo all’allegria.”



Cesare Pavese publicou esse conto em um livro intitulado “O belo verão” que se compõe de três narrativas: O belo verão, O diabo nas colinas e Mulheres sós. Não é uma trilogia, mas três contos com muito em comum e considerado um dos melhores livros italianos de todos os tempos. O volume ganhou o Prêmio Strega de 1950. Mês passado li “O Colibri” do Sandro Veronesi, outro ganhador do prêmio.



Dessa vez li uma edição bilíngue, que contém apenas o conto que dá título ao livro.  É curtinho e com um bom ritmo. Entendi razoavelmente bem, acho que por conta do interesse genuíno que senti pela história. Uma espécie de romance jovem e drama coming of age. Gostei como o Pavese escreveu com um toque de humor e das personagens que pareciam ter vida própria. Do mesmo autor também adquiri recentemente “La spiaggia” e pretendo ler em breve. Descobri que tem um filme de 2024. Merece ser assistido.




"Quell’anno faceva tanto caldo che bisognava uscire ogni sera, e a Ginia pareva di non avere mai capito prima che cosa fosse l’estate, tanto era bello uscire ogni notte per passeggiare sotto i viali ..."



Sinopse em português



Vive-se um verão quente, festivo, leve, e Ginia, de dezasseis anos, anseia por aventura. Conhece então Amelia, jovem sofisticada que se move pelo meio cultural boémio, e com ela descobrirá um mundo novo de liberdade intoxicante, repleto de prazeres reservados apenas àquela estação – andar pelos campos para lá das colinas, abrir as janelas e sentir o perfume da noite, descobrir o que há por detrás de um cortinado vermelho. O Belo Verão é uma história intensa e delicada sobre a perda da inocência e o primeiro amor, narrada por um dos mais talentosos autores italianos do século xx. Escrito na primavera de 1940, mas publicado apenas em 1949, O Belo Verão foi distinguido em 1950 com o Prémio Strega.



Sinopse em italiano



Sullo sfondo di una Torino grigia e crepuscolare, si dipana la dolorosa maturazione di un’ingenua adolescente: nell’ambiente corrotto e sregolato della bohème artistica torinese, Ginia si innamora di un giovane pittore da cui, dopo resistenze interiori e rimorsi malcelati, si lascerà sedurre. È l’inizio di un amore disperante, carico di attese e vane illusioni, destinato a consumarsi nel breve attimo di una stagione. Un romanzo intenso e delicato che narra l’iniziazione alla vita, nella fase che segna, con la scoperta dei sensi e della tentazione, il passaggio dall’adolescenza alla maturità e la consapevolezza del proprio inevitabile destino.





sexta-feira, 1 de maio de 2026

RESENHA - Tous les hommes sont mortels (Simone de Beauvoir)

 


Jamais ne s'effacerait ce goût de solitude e d'éternité qui était le goût de la vie”



Segunda vez que tento essa leitura. A primeira foi em 2017 em Boa Vista. Ainda estava aprendendo francês, e por isso achei difícil. Além, é claro, da temática. Agora quase 10 anos depois termino essa leitura. De fato, é difícil e ler Simone de Beauvoir exige paciência. Da mesma autora li Une Mort Très Douce e posso confirmar.



Em 2017 eu tinha lido a primeira parte por completo então essa ano voltei de onde parei. Terminei a leitura e achei tão boa que depois reli a primeira parte e posso dizer que é relativamente chata. Por isso em 2017 eu fiquei desmotivado. A parte narrada pelo Fosca é bem melhor e com muito mais ação.



Tudo o que se faz acaba se desfazendo, eu sei. E, a partir da hora em que nasce, começa-se a morrer. Mas, entre o nascimento e a morte, há a vida!”




Livro denso, longo em suas 530 paginas e que li aos poucos para assimilar bem o que estava diante dos meus olhos. Detalhe que li esse livro emprestado, nas duas vezes e da mesma pessoa, com direito a retorno em ambas. Enfim, o empréstimo mais longo da minha carreira.



Romance incrível. Livro de 1946, logo após a guerra e sinto que foi muito influenciado por isso. Curioso é que o titulo não é mencionado no livro. A historia é triste. Li antes de dormir e até cheguei a sonhar com esse livro. Foi um livro de ficção que conseguiu realmente penetrar em mim e que me deixara nele pensando por muito tempo após mergulhar em suas paginas.



"De uma eternidade imóvel, ela poderia ter sua parte, mas subitamente o mundo não passava de um desfile de visões fugazes e suas mãos estavam vazias"



Para gente que cresceu achando que vampiros imortais so tinham vantagens é confrontado aqui com outra visão sobre a imortalidade, bem mais pessimista. Todos os homens são mortais é um relato sobre a morte dando sentido para vida e o fim da ilusão da imortalidade como uma benção. Enfim, pensar muito deixa a gente triste.



Si l'on nous offrait l'immortalité sur la terre, qui est-ce qui accepterait ce triste présent ? demande jean-jacques rousseau dans l'emile. Ce livre est l'histoire d'un homme qui a accepté.


Citações




"Nunca a natureza nos mostraria seus segredos; ela não tinha segredos; nós é que inventávamos perguntas e fabricávamos respostas a seguir; e nunca descobriríamos no fundo de nossas retortas senão os próprios pensamentos"




"Quando se vive suficientemente, vê-se que toda vitória se transforma um dia em derrota..."



"Eram homens que queriam realizar seu destino de homem escolhendo sua morte e sua vida, eram homens livres"



"E, a partir da hora em que nasce, começa-se a morrer. Mas entre o nascimento e a morte há a vida."




- É então por desespero que escolhe morrer?

- Não estou desesperado, pois nunca esperei nada.

- E pode-se viver sem esperança?

- Sim, se se possuir alguma certeza."



"Imaginais que algum dia neste mundo possais fazer o bem sem fazer o mal? É impossível ser justo com todos, fazer a felicidade de todos."



O mundo ampliava-se, os homens tornavam-se mais numerosos, suas cidades maiores; conquistavam terras férteis às florestas e aos pantanais, inventavam novos utensílios; mas as lutas faziam-se mais selvagens, nas matanças as vítimas contavam-se aos milhares; aprendiam a destruir ao mesmo tempo em que aprendiam a construir. Dir-se-ia que um deus obstinado se aplicava em manter um imutável e absurdo equilíbrio entre a vida e a morte, entre prosperidade e a miséria.”



O que vale a seus olhos não é nunca o que recebem, é o que fazem. Se não podem criar, precisam destruir, mas de qualquer maneira devem recusar a realidade; do contrário, não seriam homens. E a nós, que pretendemos forjar o mundo por eles e encerrá-los dentro, a nós só nos podem odiar. Essa ordem, essa tranquilidade com que sonhamos, seria para eles a pior das maldições...”



SINOPSE



Um personagem do século XIII, o conde Fosca, desafia o tempo e chega até os dias de hoje questionando tópicos inerentes à natureza humana, tais como a ambição, o poder, a imortalidade, o prazer, o destino e a transcendência. Um ensaio em forma de ficção que realça os absurdos da consciência. Neste trabalho Simone de Beauvoir descreve a vida de um homem imortal, sonhando e freqüentemente afirmado ideal. Mas este romance de projeção mental em que ele mergulha o leitor se refere especialmente ao verdadeiro sentido da vida, que tem valor real por alguns finitude que o caracteriza. Tudo o que faz com que a humanidade e permite que o ser humano a desenvolver e experimentar sentimentos reside principalmente no conhecimento de que o objeto de nosso interesse pode desaparecer, quer através de nossa própria morte ou a sua.


sábado, 11 de abril de 2026

RESENHA - Un duc à défier (Christy Carlyle)

 


En certains cas, une fois qu'un changement est entrepris, la transformation complète survient sans tarder.

Romance docinho. Possui tudo o que a gente espera desse tipo de literatura. Leitura fácil, feel-good, fluida. Divertido e bem escrito. Li em francês sem nem me dar conta que estava lendo em outro idioma. A autora Christy Carlyle sabe bem coimo contar uma história sem precisar enrolar muito, colocando todos os clichês e situações românticas possíveis.



Maddie n'avait pas le moindre doute quant au fait qu'elle apprécierait les moments passés en sa compagnie. Et c'était ce qui lui faisait le plus peur.



Tirei o ano para ler tudo o que eu tinha de livros recebidos de outras pessoas. Esse daqui ganhei de presente do Vincent em 2022 provavelmente comprado em uma banca de revista apenas pelo título (um trocadilho com o sobrenome dele) e dada a sinopse nunca tive coragem de ler. Além disso, o romance tem mais de 400 páginas e achei que poderia ser uma leitura longa que eu terminaria não gostando. Não foi o caso. É simples de ler.



Son cœur se sentait plus rempli quand elle était avec lui, et il battait follement à présent qu'elle se trouvait entre ses bras. C'était incontestable. Elle était totalement tombée amoureuse de lui.


Un Duc à Défier foi minha primeira vez lendo um harlequin e achei bem ok. Pelo estilo me lembra muito Bridgerton. É um romance que começa slow burn e termina tipo hot, erótico, mas não tanto. O livro é de 2019 e faz parte de uma série de livros ambientados na Era Vitoriana. Não tem publicação no Brasil, mas acho que o título seria algo do tipo “desafiando um duque”.


Dieu tout-puissant, était-il possible qu'un duc du royaume se cachant dans les Cornouailles ait véritable-ment décidé de la courtiser ?



É o livro perfeito para ler ouvindo La Oreja de Van Gogh ou uma playlist de músicas de amor bem bobinhas (amo/sou). O final poderia ser um pouco mais bem trabalhado, mas as intenções estavam claras desde o início então não tenho do que reclamar. É aquela dica de livro para relaxar e aproveitar o momento: ler de coração aberto.



Will couvrit de sa main celle que Maddie avait glissée au creux de son bras tandis qu'ils avançaient vers la porte.

- Quel que soit l'endroit où vous vous trouvez, c'est en ce lieu que je désire être, mon amour.


Resenha em francês



Cornouailles, 1894 La réputation de Will Hart, duc d'Ashmore, n'est plus à faire : homme froid, sans cur et désespérément pragmatique, il sait faire fuir d'un seul regard glacial quiconque ose s'opposer à lui. Et être forcé de retourner au manoir en ruine de son enfance au fin fond des Cornouailles n'est pas pour améliorer son humeur ! C'est donc avec un tempérament orageux et des paroles acerbes qu'il accueille Madeline Ravenwood, petite-fille de vicomte et jardinière de renom. Déterminée et sûre d'elle, la jeune femme tient à ce qu'il restaure le manoir, point d'orgue du village et du futur festival floral auquel elle concourt. Les enjeux sont de taille : la princesse royale est attendue, et son aval pourrait infléchir la carrière de Madeline. Et, Will a beau tempêter et refuser cette responsabilité, Madeline semble décidée à lui tenir tête coûte que coûte... Dans ses yeux bleus envoûtants brille la flamme du défi, qui attise un désir brûlant en Will. Cette adversaire à sa hauteur pourrait-elle être celle qui réveillera son cœur ?


domingo, 29 de março de 2026

RESENHA – O Colibri - Sandro Veronesi


Sinto que todas as coisas supérfluas me abandonam, e me dou conta de que, se você tirar da minha vida todas as coisas supérfluas, a única que sobra é você.”


Quando não leio diretamente em italiano, tento ao menos ler uma tradução, e para falar a verdade, esse daqui foi um pouco difícil de ler, mesmo sendo uma tradução para o francês, idioma que estou acostumado a ler. Muitas vezes o texto vem sem parágrafos, poucos pontos, apenas virgulas. Tem momentos que parece um fluxo de pensamentos, do próprio autor e não dos personagens.



"Todo o amor que se espalhou pelo mundo, todo o tempo desperdiçado e toda a dor sentida: tudo era força, era potência, era destino."


Achei interessante o fato de ser um livro escrito a partir de cartas, e-mails, mensagens de texto, WhatsApp, ligações telefônicas, poemas e todo tipo de linguagem. O livro inteiro tem uma linha temporal bem longa, passado, presente e projeções para um futuro próximo, que não é organizada então é um pouco difícil de acompanhar. Talvez se fosse um pouco mais linear seria melhor. Sem contar que o livro é bem triste/ mórbido. Uma verdadeira loucura, com uma história como nunca tinha visto. Muito original. Apenas o final poderia ter sido menos absurdo...



"A mentira é um câncer e se propaga, e se enraíza, e se confunde com a própria substância que corrompe - mas ele havia feito algo pior: acreditara nela."


A narrativa habilidosa de Sandro Veronesi conseguiu transformar o ordinário em algo extraordinário. Num vai e vem narrativo que desde o início prende nossa atenção. Em seguida intercala uma série de acontecimentos que parece nunca terminar. Um verdadeiro fluxo de recordações. E nesse meio tem várias coisas que não adicionam nada a narrativa, mas estão ali por alguma razão. Além disso, o texto é repleto de passagens belíssimas, tanto originais quanto citações de outros livros, músicas e até filmes. Muitas referências. Gosto disso em um livro.



O Colibri, publicado em 2019, é uma história sobre continuar a todo custo. Descobri que também tem um filme. Talvez um dia eu assista, também senti vontade de ler outros livros dele. Sem dúvidas é um livro que no final todo leitor terá algo para falar, bom ou ruim.


O livro foi vencedor do Prêmio Strega 2020, um dos mais importantes da Itália. Apenas dois autores ganharam duas vezes o Prêmio Strega, Sandro Veronesi é um deles. A primeira vez foi em 2006 com "Caos calmo". Antes somente Paolo Volponi havia conquistado o prêmio por duas vezes em 1965 e de novo em 1991. Foi adaptado para o cinema em 2022, com mesmo título (Il colibri), direção de Francesca Archibugi e Pierfrancesco Favino no papel de Marco. No Brasil foi publicado em 2024 pela Editora Autêntica e tradução de Karina Jannini.



CITAÇÕES


“… Marco não sente dor. Sentiu muito em sua vida. Uma vida cheia de dor, sem dúvida. Mas toda a dor sentida nunca o impediu de aproveitar momentos como este, em que tudo parece perfeito - e de momentos como este, sua vida também foi plena.”


O colibri emprega toda sua energia em ficar parado.”


Tentei colocar uma música bem bonita no despertador, em vez do toque, mas despertar continua sendo assustador. A máquina do tempo existe.”



"Eu te amei muito, de verdade; por quarenta anos, você foi a primeira e a última coisa em que pensei em cada dia da minha vida. Mas a agora não é mais assim, porque meu primeiro pensamento é para ela, e o meu último também é para ela, e no meio existem apenas outros pensamentos para ela. Somente assim me é possível vive neste momento."


Viu só, papà? Começamos bem. O Homem do Futuro é uma mulher.”


Assim, à exceção de Giacomo, prostrado no sofá sob o efeito de uma potente combinação de rum e Nutella, a partir de determinado momento, essa noite especial encontra quatro quintos da família Carrera deitados na areia, em pontos diferentes da mesma costa, acariciados pelo mesmo marulho e visitados por diferentes estados de felicidade. Letizia e Probo, em San Vincenzo, pela felicidade gerada pela loucura que acaba de ser cometida, destinada - e eles sabem disso - a não se repetir nunca mais e, por isso, realmente inigualável; Marco, em Baratti com Luisa, pela felicidade ainda mais inigualável, oferecida pelos lábios inchados de tantos chupões e pela certeza - ilusória, infelizmente; de fato, mais ilusória do que nunca -, de que esses chupões se repetirão muitas e muitas vezes; e, por fim, Irene, em Bolgheri, a mais deitada de todos, a mais feliz, com a mente apagada, já sem aflições, o corpo vazio, já sem posições, restituída pelos Redemoinhos à superfície como um joguete das ondas na linha de rebentação, onde o mar Tirreno central, com a baixa da maré, fará com que ela seja encontrada.”



“(...) pela primeira vez na vida, viu-se com muito tempo livre, e o tempo livre é um verdadeiro pesadelo para as pessoas instáveis.”


Se o senhor cuidar de Miraijin com um vazio no cora-ção, transmitirá esse vazio a ela. Se, ao contrário, tentar preencher esse vazio, e não importa se vai conseguir ou não, basta que tente preenchê-lo, então, transmitirá a ela esse esforço, e esse esforço, simplesmente, é a vida.”


Foi uma iluminação: você realmente é um colibri. Mas não pelas razões pelas quais te deram esse apelido: você é um colibri porque, como o colibri, põe toda a sua energia em permanecer parado. Setenta batidas de asas por segundo para permanecer onde já está. Você é incrível nisso. Consegue parar no mundo e no tempo, consegue parar o mundo e o tempo ao seu redor; às vezes, consegue até voltar no tempo e encontrar o tempo perdido, assim como o colibri é capaz de voar em marcha a ré. Por isso é tão bonito estar perto de você.”



No entanto, acima de tudo, esse estar sempre parado, fazendo todo esse esforço, às vezes não é a cura, é a ferida. Por isso é impossível ficar perto de você.”


"Onde nada vales, nada podes querer".


"Quantas pessoas estão sepultados dentro de nós?"



'Trabalhamos com os desejos, com os prazeres. Porque os desejos e os prazeres sobrevivem até mesmo na situação mais desastrosa. Somos nós que os censuramos. Atingidos pelo luto, censuramos nossa libido quando é justamente ela que pode nos salvar. Você gosta de jogar bola? Pois então, jogue. Gosta de caminhar à beira-mar, comer maionese, pintar as unhas, capturar lagartixas, cantar? Faça-o. Isso não vai resolver nenhum dos seus problemas, mas também não vai agravá-los e, nesse meio tempo, seu corpo se livrará da ditadura da dor, que quer mortificá-lo'.


"O fato é que é fácil entender que haja um motivo por trás do movimento, mas é mais difícil entender que haja algum também por trás da imobilidade. [...] Assim, não há o que fazer; no final, quem se move é corajoso, e quem permanece parado é medroso [...] Por isso, fico feliz que tenha se dado conta de que é preciso ter coragem e energia também para ficar parado."


"Há seres que passam a vida se esfalfando com o objetivo de alcançar, conhecer, conquistar, descobrir, melhorar, para depois perceberem que não fizeram outra coisa a não ser buscar a vibração que os lançou no mundo: para eles, o ponto de partida e o ponto de chegada coincidem. Há outros também que, mesmo estando parados, percorrem uma estrada longa e cheia de aventuras, pois é o mundo que desliza sob seus pés, e terminam muito longe de onde haviam partido."



"Olhar é tocar à distância; os olhares são corpo. De passividade, isso não tem nada."


"Toda dor sentida nunca o impediu de aproveitar momentos como este, em que tudo parece perfeito - e de momentos como este, sua vida também foi plena."


"Quem nunca passou pela situação de sentir-se repentinamente humilhado quando a pessoa com a qual está falando lança um olhar de relance ao relógio? O que muda e torna os olhares das pessoas mais ou menos sustentáveis é a quantidade de atenção que transmitem."



Deveria ser de conhecimento geral - mas não é - que o destino das relações interpessoais é decidido no início, de uma vez por todas, sempre, e que, para saber antecipadamente como as coisas vão terminar, basta olhar para como começaram. Com efeito, quando uma relação nasce, há sempre um momento de iluminação no qual também se consegue vê-la crescer, estender-se no tempo, tornar-se o que se tornará e acabar como acabará - tudo ao mesmo tempo. É possível vê-la bem porque, na realidade, tudo já está contido no início, como a forma de todas as coisas está contida em sua primeira manifestação. Mas se trata, precisamente, de um momento, e então essa visão inspirada desaparece ou é recalcada, e somente por isso as histórias entre as pessoas produzem surpresas, danos, prazer ou dor imprevista. Nós sabíamos disso, por um lúcido, breve momento, já sabíamos no início, mas depois, pelo resto de nossa vida, não soubemos mais. Como quando nos levantamos da cama, à noite, e andamos às cegas em meio à escuridão do quarto para ir ao banheiro, e nos sentimos perdidos, e acendemos a luz por meio segundo, e logo em seguida a apagamos, e esse clarão nos mostra o caminho, mas só pelo tempo necessário para ir dar nossa mijadinha e voltar para a cama. Da próxima vez, estaremos perdidos de novo.”


Mas é verdade que, se uma história de amor não termina ou, como nesse caso, nem sequer começa, ela continuará a perseguir a vida dos protagonistas com sua ausência de coisas não ditas, ações não realizadas, beijos não dados: é sempre verdade (…)”. “(…) porque a mentira é um câncer e se propaga, e se enraíza, e se confunde com a própria substância que corrompe - mas ele havia feito algo pior: acreditara nela.”


Não, não existem olhares mais importantes e olhares menos importantes: quando são lançados, todos os olhares são um envolvimento, e é somente a coincidência dos eventos, ou seja, o acaso, a determinar suas consequências”.


Há seres que passam a vida se esfalfando com o objetivo de avançar, conhecer, conquistar, descobrir, melhorar, para depois perceberem que não fizeram outra coisa a não ser buscar a vibração que os lançou no mundo: para eles, o ponto de partida e o ponto de chegada coincidem. Há outros também que, mesmo estando parados, percorrem uma estrada longa e cheia de aventuras, pois é o mundo que desliza sob seus pés, e terminam muito longe de onde haviam partido: Marco Carrera era um destes. Àquela altura, estava claro: sua vida tinha um objetivo. Nem todas as vidas o tinham, mas a sua, sim. As dolorosas adversidades que a haviam marcado também tinham um objetivo, nada lhe acontecera por acaso.”


SINOPSE ITALIANO



Marco Carrera è il colibrì. La sua è una vita di continue sospensioni ma anche di coincidenze fatali, di perdite atroci e amori assoluti. Non precipita mai fino in fondo: il suo è un movimento incessante per rimanere fermo, saldo, e quando questo non è possibile, per trovare il punto d'arresto della caduta - perché sopravvivere non significhi vivere di meno. Intorno a lui, Veronesi costruisce un mondo intero, in un tempo liquido che si estende dai primi anni settanta fino a un cupo futuro prossimo, quando all'improvviso splenderà il frutto della resilienza di Marco Carrera: è una bambina, si chiama Miraijin, e sarà l'uomo nuovo. Dalla quarta di copertina Marco Carrera è il colibrì. La sua è una vita di continue sospensioni ma anche di coincidenze fatali, di perdite atroci e amori assoluti. Non precipita mai fino in fondo: il suo è un movimento incessante per rimanere fermo, saldo, e quando questo non è possibile, per trovare il punto d'arresto della caduta - perché sopravvivere non significhi vivere di meno.


SINOPSE PORTUGUÊS




Ambientado em Florença e em outras pequenas cidades italianas, O colibri é a história de quatro gerações da família Carrera. O ponto de vista é o de Marco, filho médico do casal Letizia e Probo, irmão de Irene e Giacomo, pai de Adele e avô de Miraijin. Marco Carrera é o colibri, um homem com uma habilidade quase sobrenatural de pairar, permanecer firme, sem perder o ânimo em meio ao caos de um mundo em constante transformação, de uma vida com alegrias, mas também coincidências fatais, perdas atrozes e amores absolutos. Sandro Veronesi constrói, de modo não linear, a saga familiar dos Carrera. A história, contada por meio de diversos gêneros – cartas, documentos, e-mails, chamadas telefônicas, conversas de WhatsApp -, transita por memórias que vão dos anos 1970 aos dias atuais, aventurando-se até a audaciosa projeção de uma década. Permeado por traições, incomunicabilidades, questões geracionais e de saúde mental, resiliência, superações, doenças, morte e amor, este é um romance emocionante sobre a necessidade de olhar para o futuro com esperança; um retrato da existência humana, das vicissitudes e dos caprichos que nos impulsionam e, em última instância, nos definem.


SINOPSE INGLÊS


Marco Carrera is 'the hummingbird,' a man with the almost supernatural ability to stay still as the world around him continues to change. As he navigates the challenges of life - confronting the death of his sister and the absence of his brother; taking care of his parents as they approach the end of their lives; raising his granddaughter when her mother, Marco's own child, can no longer be there for her; coming to terms with his love for the enigmatic Luisa - Marco Carrera comes to represent the quiet heroism that pervades so much of our everyday existence. A thrilling novel about the need to look to the future with hope and live with intensity to the very end.


SINOPSE FRANCÊS


« Tu es un colibri parce que, comme le colibri, tu mets toute ton énergie à rester immobile. Tu réussis à t'arrêter dans le monde et dans le temps, tu réussis à arrêter le monde et le temps autour de toi, et même parfois tu réussis à le remonter, à retrouver le temps perdu, tout comme le colibri est capable de voler à reculons. Et c'est pour cette raison qu'il fait si bon vivre près de toi. »C'est ainsi que Luisa, la femme qu'il aime et qui ne cesse de lui échapper, s'adresse à Marco Carrera. Mais qu'advient-il d'un homme lorsque la passion et la tragédie s'invitent ensemble au cœur d'une nuit d'été ?Une virtuosité narrative époustouflante. Le Figaro littéraire.Une épopée pleine de surprises. Les Inrockuptibles.Un final qui nous essore le cœur. Elle.Un monument de beauté. Le Journal du dimanche.Prix Strega. Prix du livre étranger France Inter / Le Point 2021.Traduit de l'italien par Dominique Vittoz.