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“Sinto que todas as coisas supérfluas me abandonam, e me dou conta de que, se você tirar da minha vida todas as coisas supérfluas, a única que sobra é você.”
Quando não leio diretamente em italiano, tento ao menos ler uma tradução, e para falar a verdade, esse daqui foi um pouco difícil de ler, mesmo sendo uma tradução para o francês, idioma que estou acostumado a ler. Muitas vezes o texto vem sem parágrafos, poucos pontos, apenas virgulas. Tem momentos que parece um fluxo de pensamentos, do próprio autor e não dos personagens.
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"Todo o amor que se espalhou pelo mundo, todo o tempo desperdiçado e toda a dor sentida: tudo era força, era potência, era destino."
Achei interessante o fato de ser um livro escrito a partir de cartas, e-mails, mensagens de texto, WhatsApp, ligações telefônicas, poemas e todo tipo de linguagem. O livro inteiro tem uma linha temporal bem longa, passado, presente e projeções para um futuro próximo, que não é organizada então é um pouco difícil de acompanhar. Talvez se fosse um pouco mais linear seria melhor. Sem contar que o livro é bem triste/ mórbido. Uma verdadeira loucura, com uma história como nunca tinha visto. Muito original. Apenas o final poderia ter sido menos absurdo...
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"A mentira é um câncer e se propaga, e se enraíza, e se confunde com a própria substância que corrompe - mas ele havia feito algo pior: acreditara nela."
A narrativa habilidosa de Sandro Veronesi conseguiu transformar o ordinário em algo extraordinário. Num vai e vem narrativo que desde o início prende nossa atenção. Em seguida intercala uma série de acontecimentos que parece nunca terminar. Um verdadeiro fluxo de recordações. E nesse meio tem várias coisas que não adicionam nada a narrativa, mas estão ali por alguma razão. Além disso, o texto é repleto de passagens belíssimas, tanto originais quanto citações de outros livros, músicas e até filmes. Muitas referências. Gosto disso em um livro.
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O Colibri, publicado em 2019, é uma história sobre continuar a todo custo. Descobri que também tem um filme. Talvez um dia eu assista, também senti vontade de ler outros livros dele. Sem dúvidas é um livro que no final todo leitor terá algo para falar, bom ou ruim.
O livro foi vencedor do Prêmio Strega 2020, um dos mais importantes da Itália. Apenas dois autores ganharam duas vezes o Prêmio Strega, Sandro Veronesi é um deles. A primeira vez foi em 2006 com "Caos calmo". Antes somente Paolo Volponi havia conquistado o prêmio por duas vezes em 1965 e de novo em 1991. Foi adaptado para o cinema em 2022, com mesmo título (Il colibri), direção de Francesca Archibugi e Pierfrancesco Favino no papel de Marco. No Brasil foi publicado em 2024 pela Editora Autêntica e tradução de Karina Jannini.
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CITAÇÕES
“… Marco não sente dor. Sentiu muito em sua vida. Uma vida cheia de dor, sem dúvida. Mas toda a dor sentida nunca o impediu de aproveitar momentos como este, em que tudo parece perfeito - e de momentos como este, sua vida também foi plena.”
“O colibri emprega toda sua energia em ficar parado.”
“Tentei colocar uma música bem bonita no despertador, em vez do toque, mas despertar continua sendo assustador. A máquina do tempo existe.”
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"Eu te amei muito, de verdade; por quarenta anos, você foi a primeira e a última coisa em que pensei em cada dia da minha vida. Mas a agora não é mais assim, porque meu primeiro pensamento é para ela, e o meu último também é para ela, e no meio existem apenas outros pensamentos para ela. Somente assim me é possível vive neste momento."
“Viu só, papà? Começamos bem. O Homem do Futuro é uma mulher.”
“Assim, à exceção de Giacomo, prostrado no sofá sob o efeito de uma potente combinação de rum e Nutella, a partir de determinado momento, essa noite especial encontra quatro quintos da família Carrera deitados na areia, em pontos diferentes da mesma costa, acariciados pelo mesmo marulho e visitados por diferentes estados de felicidade. Letizia e Probo, em San Vincenzo, pela felicidade gerada pela loucura que acaba de ser cometida, destinada - e eles sabem disso - a não se repetir nunca mais e, por isso, realmente inigualável; Marco, em Baratti com Luisa, pela felicidade ainda mais inigualável, oferecida pelos lábios inchados de tantos chupões e pela certeza - ilusória, infelizmente; de fato, mais ilusória do que nunca -, de que esses chupões se repetirão muitas e muitas vezes; e, por fim, Irene, em Bolgheri, a mais deitada de todos, a mais feliz, com a mente apagada, já sem aflições, o corpo vazio, já sem posições, restituída pelos Redemoinhos à superfície como um joguete das ondas na linha de rebentação, onde o mar Tirreno central, com a baixa da maré, fará com que ela seja encontrada.”
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“(...) pela primeira vez na vida, viu-se com muito tempo livre, e o tempo livre é um verdadeiro pesadelo para as pessoas instáveis.”
“Se o senhor cuidar de Miraijin com um vazio no cora-ção, transmitirá esse vazio a ela. Se, ao contrário, tentar preencher esse vazio, e não importa se vai conseguir ou não, basta que tente preenchê-lo, então, transmitirá a ela esse esforço, e esse esforço, simplesmente, é a vida.”
“Foi uma iluminação: você realmente é um colibri. Mas não pelas razões pelas quais te deram esse apelido: você é um colibri porque, como o colibri, põe toda a sua energia em permanecer parado. Setenta batidas de asas por segundo para permanecer onde já está. Você é incrível nisso. Consegue parar no mundo e no tempo, consegue parar o mundo e o tempo ao seu redor; às vezes, consegue até voltar no tempo e encontrar o tempo perdido, assim como o colibri é capaz de voar em marcha a ré. Por isso é tão bonito estar perto de você.”
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“No entanto, acima de tudo, esse estar sempre parado, fazendo todo esse esforço, às vezes não é a cura, é a ferida. Por isso é impossível ficar perto de você.”
"Onde nada vales, nada podes querer".
"Quantas pessoas estão sepultados dentro de nós?"
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'Trabalhamos com os desejos, com os prazeres. Porque os desejos e os prazeres sobrevivem até mesmo na situação mais desastrosa. Somos nós que os censuramos. Atingidos pelo luto, censuramos nossa libido quando é justamente ela que pode nos salvar. Você gosta de jogar bola? Pois então, jogue. Gosta de caminhar à beira-mar, comer maionese, pintar as unhas, capturar lagartixas, cantar? Faça-o. Isso não vai resolver nenhum dos seus problemas, mas também não vai agravá-los e, nesse meio tempo, seu corpo se livrará da ditadura da dor, que quer mortificá-lo'.
"O fato é que é fácil entender que haja um motivo por trás do movimento, mas é mais difícil entender que haja algum também por trás da imobilidade. [...] Assim, não há o que fazer; no final, quem se move é corajoso, e quem permanece parado é medroso [...] Por isso, fico feliz que tenha se dado conta de que é preciso ter coragem e energia também para ficar parado."
"Há seres que passam a vida se esfalfando com o objetivo de alcançar, conhecer, conquistar, descobrir, melhorar, para depois perceberem que não fizeram outra coisa a não ser buscar a vibração que os lançou no mundo: para eles, o ponto de partida e o ponto de chegada coincidem. Há outros também que, mesmo estando parados, percorrem uma estrada longa e cheia de aventuras, pois é o mundo que desliza sob seus pés, e terminam muito longe de onde haviam partido."
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"Olhar é tocar à distância; os olhares são corpo. De passividade, isso não tem nada."
"Toda dor sentida nunca o impediu de aproveitar momentos como este, em que tudo parece perfeito - e de momentos como este, sua vida também foi plena."
"Quem nunca passou pela situação de sentir-se repentinamente humilhado quando a pessoa com a qual está falando lança um olhar de relance ao relógio? O que muda e torna os olhares das pessoas mais ou menos sustentáveis é a quantidade de atenção que transmitem."
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“Deveria ser de conhecimento geral - mas não é - que o destino das relações interpessoais é decidido no início, de uma vez por todas, sempre, e que, para saber antecipadamente como as coisas vão terminar, basta olhar para como começaram. Com efeito, quando uma relação nasce, há sempre um momento de iluminação no qual também se consegue vê-la crescer, estender-se no tempo, tornar-se o que se tornará e acabar como acabará - tudo ao mesmo tempo. É possível vê-la bem porque, na realidade, tudo já está contido no início, como a forma de todas as coisas está contida em sua primeira manifestação. Mas se trata, precisamente, de um momento, e então essa visão inspirada desaparece ou é recalcada, e somente por isso as histórias entre as pessoas produzem surpresas, danos, prazer ou dor imprevista. Nós sabíamos disso, por um lúcido, breve momento, já sabíamos no início, mas depois, pelo resto de nossa vida, não soubemos mais. Como quando nos levantamos da cama, à noite, e andamos às cegas em meio à escuridão do quarto para ir ao banheiro, e nos sentimos perdidos, e acendemos a luz por meio segundo, e logo em seguida a apagamos, e esse clarão nos mostra o caminho, mas só pelo tempo necessário para ir dar nossa mijadinha e voltar para a cama. Da próxima vez, estaremos perdidos de novo.”
“Mas é verdade que, se uma história de amor não termina ou, como nesse caso, nem sequer começa, ela continuará a perseguir a vida dos protagonistas com sua ausência de coisas não ditas, ações não realizadas, beijos não dados: é sempre verdade (…)”. “(…) porque a mentira é um câncer e se propaga, e se enraíza, e se confunde com a própria substância que corrompe - mas ele havia feito algo pior: acreditara nela.”
“Não, não existem olhares mais importantes e olhares menos importantes: quando são lançados, todos os olhares são um envolvimento, e é somente a coincidência dos eventos, ou seja, o acaso, a determinar suas consequências”.
“Há seres que passam a vida se esfalfando com o objetivo de avançar, conhecer, conquistar, descobrir, melhorar, para depois perceberem que não fizeram outra coisa a não ser buscar a vibração que os lançou no mundo: para eles, o ponto de partida e o ponto de chegada coincidem. Há outros também que, mesmo estando parados, percorrem uma estrada longa e cheia de aventuras, pois é o mundo que desliza sob seus pés, e terminam muito longe de onde haviam partido: Marco Carrera era um destes. Àquela altura, estava claro: sua vida tinha um objetivo. Nem todas as vidas o tinham, mas a sua, sim. As dolorosas adversidades que a haviam marcado também tinham um objetivo, nada lhe acontecera por acaso.”
SINOPSE ITALIANO
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Marco Carrera è il colibrì. La sua è una vita di continue sospensioni ma anche di coincidenze fatali, di perdite atroci e amori assoluti. Non precipita mai fino in fondo: il suo è un movimento incessante per rimanere fermo, saldo, e quando questo non è possibile, per trovare il punto d'arresto della caduta - perché sopravvivere non significhi vivere di meno. Intorno a lui, Veronesi costruisce un mondo intero, in un tempo liquido che si estende dai primi anni settanta fino a un cupo futuro prossimo, quando all'improvviso splenderà il frutto della resilienza di Marco Carrera: è una bambina, si chiama Miraijin, e sarà l'uomo nuovo. Dalla quarta di copertina Marco Carrera è il colibrì. La sua è una vita di continue sospensioni ma anche di coincidenze fatali, di perdite atroci e amori assoluti. Non precipita mai fino in fondo: il suo è un movimento incessante per rimanere fermo, saldo, e quando questo non è possibile, per trovare il punto d'arresto della caduta - perché sopravvivere non significhi vivere di meno.
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SINOPSE PORTUGUÊS
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Ambientado em Florença e em outras pequenas cidades italianas, O colibri é a história de quatro gerações da família Carrera. O ponto de vista é o de Marco, filho médico do casal Letizia e Probo, irmão de Irene e Giacomo, pai de Adele e avô de Miraijin. Marco Carrera é o colibri, um homem com uma habilidade quase sobrenatural de pairar, permanecer firme, sem perder o ânimo em meio ao caos de um mundo em constante transformação, de uma vida com alegrias, mas também coincidências fatais, perdas atrozes e amores absolutos. Sandro Veronesi constrói, de modo não linear, a saga familiar dos Carrera. A história, contada por meio de diversos gêneros – cartas, documentos, e-mails, chamadas telefônicas, conversas de WhatsApp -, transita por memórias que vão dos anos 1970 aos dias atuais, aventurando-se até a audaciosa projeção de uma década. Permeado por traições, incomunicabilidades, questões geracionais e de saúde mental, resiliência, superações, doenças, morte e amor, este é um romance emocionante sobre a necessidade de olhar para o futuro com esperança; um retrato da existência humana, das vicissitudes e dos caprichos que nos impulsionam e, em última instância, nos definem.
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SINOPSE INGLÊS
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Marco Carrera is 'the hummingbird,' a man with the almost supernatural ability to stay still as the world around him continues to change. As he navigates the challenges of life - confronting the death of his sister and the absence of his brother; taking care of his parents as they approach the end of their lives; raising his granddaughter when her mother, Marco's own child, can no longer be there for her; coming to terms with his love for the enigmatic Luisa - Marco Carrera comes to represent the quiet heroism that pervades so much of our everyday existence. A thrilling novel about the need to look to the future with hope and live with intensity to the very end.
SINOPSE FRANCÊS
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« Tu es un colibri parce que, comme le colibri, tu mets toute ton énergie à rester immobile. Tu réussis à t'arrêter dans le monde et dans le temps, tu réussis à arrêter le monde et le temps autour de toi, et même parfois tu réussis à le remonter, à retrouver le temps perdu, tout comme le colibri est capable de voler à reculons. Et c'est pour cette raison qu'il fait si bon vivre près de toi. »C'est ainsi que Luisa, la femme qu'il aime et qui ne cesse de lui échapper, s'adresse à Marco Carrera. Mais qu'advient-il d'un homme lorsque la passion et la tragédie s'invitent ensemble au cœur d'une nuit d'été ?Une virtuosité narrative époustouflante. Le Figaro littéraire.Une épopée pleine de surprises. Les Inrockuptibles.Un final qui nous essore le cœur. Elle.Un monument de beauté. Le Journal du dimanche.Prix Strega. Prix du livre étranger France Inter / Le Point 2021.Traduit de l'italien par Dominique Vittoz.




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