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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Resenha - Une Valse pour Billie (Carl Norac)

 

Je me suis longtemps contenté du chaos qui me va et du bonheur laissé par d'autres.


Esse ano tentei ler poesia em português várias vezes, sempre com algum grau de dificuldade.
No entanto, é a primeira vez que leio em francês, e acho que de todo meu tempo de leitor, nunca tinha tentado ler outra coisa que não fosse prosa em língua estrangeira.
É muito difícil entender as nuances, os sentimentos, as subtilidades da poesia em outro idioma



Ce que personne ne veut :
être un papier qui brûle.
La nuit est courte comme une chaise.
Je m'y assieds sans ombre.
Devant moi, deux hommes s'enserrent parce que ni l'aube, ni les femmes ne viennent.
La peau de l'un attend de tomber tandis que celle de l'autre se lustre, un visage contre la vitre.
Les paupières des danseurs se donnent toujours aux oiseaux invisibles et leur langue aux fourmis qui descendent des livres de prières.



Une Valse pour Billie, ou uma Valsa para Billie, trata-se de uma leitura rápida, por ser poesia e ter menos de 100 páginas.
Carl Norac entrega um texto delicado, bonito e tocante.
Gostei da experiência e espero poder repeti-la em breve, com um pouco mais de poesia contemporânea antes de passar para os clássicos



ce sont douze voyages sans apôtres des alignements comme on le faisait avec les pierres dans la montagne
tentant de s'élever ensuite de redescendre
l'homme est un puits pour l'homme
avant d'être un chemin



Transeuntes e passagens, outros lugares e limiares estão entre os temas dos poemas de Carl Novac.
Eles evocam a solidão e a complexidade das relações humanas.
O dia a dia e a poesia que existe na rotina.



La rue qui nous sépare ce n'est pas la conscience ni une coïncidence mais un pesant de macadam de pas perdus de fugues arrêtées.
Mieux en face qu'ici
mieux ici qu'en face
éternellement la vie consiste à s'enfuir.



Edition: L'Escampette éditions
Format: 88 p.

SINOPSE




Ce livre est construit comme une pyramide et, pierre à pierre, nous élève vers la lumière. Avec un balancement de la solitude aux relations humaines, comme nous l’indiquent les titres : Passants et passages, Ailleurs et seuils… L'aboutissement aussi d'un voyage vers des voix qui nous traversent, de Cendrars à Walser, d'Hafïz à Billie Holiday.


quinta-feira, 8 de maio de 2025

RESENHA - SONETOS (Luis de Camões)

 

"De amor escrevo, de amor trato e vivo;

De amor me nasce amar sem ser amado;"


Muito amor e lamentações.

Surpresos por encontrar alguns sonetos realmente bons.

Inclusive neste livro estão os textos mais conhecidos do autor.


 


"Ouçam a longa história de meus males,

E curem sua dor com minha dor;

Que grandes mágoas podem curar mágoas."


Esta é a segunda vez que leio Camões.

A primeira foi em 2014 com o clássico Os Lusíadas, obra prima da língua português e que se mortalizou como um dos maiores épicos da literatura universal.


 


"Transforma-se o amador na cousa amada,

por virtude do muito imaginar;

não tenho, logo, mais que desejar,

pois em mim tenho a parte desejada."


Em sonetos estão os principais textos líricos do autor.

Produção do maior poeta da língua portuguesa, esta reunião de 204 sonetos tenta ser sua coletânea completa de poemas.

São textos antigos, porém a forma como ele falava do amor e dos próprios sofrimentos segue atual.



"Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem (se algum houve) as saudades."


Como Os Lusíadas é mais do estilo épico, essa foi a primeira vez que li Camões e posso dizer que gostei.

Apesar disso, poesia continua não sendo meu estilo literário favorito, ainda mais se tratando de algo escrito a mais de 400 anos atrás.

O rigor da métrica é bem presente em seus sonetos.

Por conta disso, pode ser difícil de ler pelo estilo e o uso de algumas palavras do português antigo.



"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Muda-se o ser, muda-se a confiança

Todo o mundo é composto de mudança

Tomando sempre novas qualidades."


Uma pequena obra que traz os escritos sobre o amor de um dos maiores poetas da língua portuguesa.

Ao lado dele, mês passado li Fernando Pessoa.

Em ambos os casos se trata de publicações póstumas. 

A poesia lírica de Camões foi publicada pela primeira vez em 1595.



"Amor, que gesto humano n'alma escreve,

Vivas faíscas me mostrou um dia

Donde um puro cristal se derretia

Por ente vivas rosas e alva neve"


Pode parecer um livro curtinho, porem recomendo apenas para quem gosta realmente de poesia lírica e textos clássicos.

E claro, um pouco de romance.



"Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói, e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer."


Luís de Camões

Páginas: 290

Idioma: português


ALGUNS SONETOS


 


"Transforma-se o amador na cousa amada,

por virtude do muito imaginar;

não tenho, logo, mais que desejar,

pois em mim tenho a parte desejada.


Se nela está minha alma transformada,

que mais deseja o corpo de alcançar?

Em si somente pode descansar,

pois consigo tal alma está liada."


 


Mas esta linda e pura semideia, que,

como um acidente em seu sujeito,

assi co a alma minha se conforma,


está no pensamento como ideia:

[e] o vivo e puro amor de que sou feito,

como a matéria simples busca a forma."



"Os bons vi sempre passar no mundo graves tormentos;

E, para mais m'espantar,

os maus vi sempre nadar em mar de contentamentos.


Cuidando alcançar assim o bem tão mal ordenado,

fui mau, mas fui castigado.

Assim, que só para mim anda o mundo concertado."



 


"O tempo acaba o ano, o mês e a hora,

A força, a arte, a manha, a fortaleza;

O tempo acaba a fama e a riqueza,

O tempo o mesmo tempo de si chora;


O tempo busca e acaba o onde mora

Qualquer ingratidão, qualquer dureza;

Mas não pode acabar minha tristeza,

Enquanto não quiserdes vós, Senhora.


O tempo o claro dia torna escuro

E o mais ledo prazer em choro triste;

O tempo, a tempestade em grão bonança.


Mas de abrandar o tempo estou seguro

O peito de diamante, onde consiste

A pena e o prazer desta esperança. "



"Mas,. conquanto não pode haver desgosto

Onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê.


Que dia há que n'alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde

Vem não sei como, e doi não sei porquê. "



"enfim, tudo que a rara natureza

com tanta variedade nos oferece,

me está, se não te vejo, magoando.


Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;

sem ti, perpetuamente estou passando,

nas mores alegrias, mor tristeza."