domingo, 17 de maio de 2026

RESENHA - Antologia poética (Ferreira Gullar)


O amor é difícil, mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade sob as nuvens e entre as águas azuis.

Antologia poético do Ferreira Gullar. Autor maranhense relativamente com conhecido da literatura brasileira, apesar disso, essa foi a primeira vez que li algo dele. A antologia é feita de poemas selecionados pelo próprio autor. Alguns poemas que já tinham aparecido em dois livros dele (A luta corporal e dentro da noite veloz) e alguns novos.



Escuta:
o que passou passou
e não há força 
capaz de mudar isto.


Encontrei esse livro por acaso aqui na França numa livraria de livros usados em uma cidade esquecida no meio do nada. Realmente uma raridade. Livro de poesia escrito em 1977, com nova edição em 1979, essa que tenho comigo. Um livro antigo que foi parar em Agen não sei como. So ai ja tem uma historia.


O que passou passou.
Jamais acenderás de novo
o lume 
do tempo que apagou.


Não é a primeira vez que leio poesia assim. Já li alguns clássicos, outros modernos, outros contemporâneos. Camões, Fernando Pessoa, autores franceses, autores brasileiros atuais. Sempre tenho muita dificuldade lendo poesia, ainda mais desse tipo que pareço não entender nada. Principalmente por conta da diagramação e do próprio sentido dos poemas.


Digo adeus a ilusão
mas não ao mundo. Mas não a vida,
meu reduto e meu reino.
Do salario injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do terror,
retiramos algo e com ele construímos um artefato
um poema
uma bandeira

Tem cerca de 100 paginas. É bem curtinho, até mesmo para um livro de poesia. A parte da critica social é bem visível em alguns poemas como "Não há vagas" e "No corpo", assim como os lugares onde foram escritos durante o exilio.


Se tivesse certeza de que ao fim destas palavras meu corpo rolasse fulminado, eu faria delas o que elas devem ser, eu as conduziria a sua ultima ignição, eu concluiria o ciclo de seu tempo (…)

Nas palavras do autor: "Adotei três critérios para selecionar os poemas que constituem esta pequena antologia: primeiro, os poemas que mais me agradam; segundo, os que, através dos anos, foram destacados pela crítica e pelos leitores; e terceiro, os que, segundo creio, marcaram momentos significativos no meu trabalho poético." F. G.

o pássaro que é
branco
não porque ele o queira nem
porque o necessitamos. O pássaro que é
branco
porque é branco Que te resta, pois, senão
aceitar
Por ti e pelo
pássaro branco

quinta-feira, 14 de maio de 2026

RESENHA - LA BELLA ESTATE (Cesare Pavese)


 "A quei tempi era sempre festa. Bastava uscire di casa e attraversare la strada, per diventare come matte, e tutto era bello, specialmente di notte ..."



Seguindo com minhas tentativas de ler em italiano. Excelente livro para os dias ensolarados. Tem muito daquele gostinho de dia de verão. No Brasil é traduzido como "O belo verão", idêntico ao título original.



Achei um texto atual para a época que foi escrito, bem maduro, e talvez por isso, apesar de ter sido finalizado em 1940 só foi publicado em 1949. O final na verdade é apenas um recorte temporal, o que é bem bacana para uma história que acontece praticamente em uma estação do ano e em um momento da vida.



“Tina ch’era uscita zoppa dall’ospedale e in casa non aveva da mangiare, anche lei rideva per niente, e una sera, trottando dietro gli altri, si era fermata e si era messa a piangere perché dormire era una stupidaggine e rubava tempo all’allegria.”



Cesare Pavese publicou esse conto em um livro intitulado “O belo verão” que se compõe de três narrativas: O belo verão, O diabo nas colinas e Mulheres sós. Não é uma trilogia, mas três contos com muito em comum e considerado um dos melhores livros italianos de todos os tempos. O volume ganhou o Prêmio Strega de 1950. Mês passado li “O Colibri” do Sandro Veronesi, outro ganhador do prêmio.



Dessa vez li uma edição bilíngue, que contém apenas o conto que dá título ao livro.  É curtinho e com um bom ritmo. Entendi razoavelmente bem, acho que por conta do interesse genuíno que senti pela história. Uma espécie de romance jovem e drama coming of age. Gostei como o Pavese escreveu com um toque de humor e das personagens que pareciam ter vida própria. Do mesmo autor também adquiri recentemente “La spiaggia” e pretendo ler em breve. Descobri que tem um filme de 2024. Merece ser assistido.




"Quell’anno faceva tanto caldo che bisognava uscire ogni sera, e a Ginia pareva di non avere mai capito prima che cosa fosse l’estate, tanto era bello uscire ogni notte per passeggiare sotto i viali ..."



Sinopse em português



Vive-se um verão quente, festivo, leve, e Ginia, de dezasseis anos, anseia por aventura. Conhece então Amelia, jovem sofisticada que se move pelo meio cultural boémio, e com ela descobrirá um mundo novo de liberdade intoxicante, repleto de prazeres reservados apenas àquela estação – andar pelos campos para lá das colinas, abrir as janelas e sentir o perfume da noite, descobrir o que há por detrás de um cortinado vermelho. O Belo Verão é uma história intensa e delicada sobre a perda da inocência e o primeiro amor, narrada por um dos mais talentosos autores italianos do século xx. Escrito na primavera de 1940, mas publicado apenas em 1949, O Belo Verão foi distinguido em 1950 com o Prémio Strega.



Sinopse em italiano



Sullo sfondo di una Torino grigia e crepuscolare, si dipana la dolorosa maturazione di un’ingenua adolescente: nell’ambiente corrotto e sregolato della bohème artistica torinese, Ginia si innamora di un giovane pittore da cui, dopo resistenze interiori e rimorsi malcelati, si lascerà sedurre. È l’inizio di un amore disperante, carico di attese e vane illusioni, destinato a consumarsi nel breve attimo di una stagione. Un romanzo intenso e delicato che narra l’iniziazione alla vita, nella fase che segna, con la scoperta dei sensi e della tentazione, il passaggio dall’adolescenza alla maturità e la consapevolezza del proprio inevitabile destino.





sexta-feira, 1 de maio de 2026

RESENHA - Tous les hommes sont mortels (Simone de Beauvoir)

 


Jamais ne s'effacerait ce goût de solitude e d'éternité qui était le goût de la vie”



Segunda vez que tento essa leitura. A primeira foi em 2017 em Boa Vista. Ainda estava aprendendo francês, e por isso achei difícil. Além, é claro, da temática. Agora quase 10 anos depois termino essa leitura. De fato, é difícil e ler Simone de Beauvoir exige paciência. Da mesma autora li Une Mort Très Douce e posso confirmar.



Em 2017 eu tinha lido a primeira parte por completo então essa ano voltei de onde parei. Terminei a leitura e achei tão boa que depois reli a primeira parte e posso dizer que é relativamente chata. Por isso em 2017 eu fiquei desmotivado. A parte narrada pelo Fosca é bem melhor e com muito mais ação.



Tudo o que se faz acaba se desfazendo, eu sei. E, a partir da hora em que nasce, começa-se a morrer. Mas, entre o nascimento e a morte, há a vida!”




Livro denso, longo em suas 530 paginas e que li aos poucos para assimilar bem o que estava diante dos meus olhos. Detalhe que li esse livro emprestado, nas duas vezes e da mesma pessoa, com direito a retorno em ambas. Enfim, o empréstimo mais longo da minha carreira.



Romance incrível. Livro de 1946, logo após a guerra e sinto que foi muito influenciado por isso. Curioso é que o titulo não é mencionado no livro. A historia é triste. Li antes de dormir e até cheguei a sonhar com esse livro. Foi um livro de ficção que conseguiu realmente penetrar em mim e que me deixara nele pensando por muito tempo após mergulhar em suas paginas.



"De uma eternidade imóvel, ela poderia ter sua parte, mas subitamente o mundo não passava de um desfile de visões fugazes e suas mãos estavam vazias"



Para gente que cresceu achando que vampiros imortais so tinham vantagens é confrontado aqui com outra visão sobre a imortalidade, bem mais pessimista. Todos os homens são mortais é um relato sobre a morte dando sentido para vida e o fim da ilusão da imortalidade como uma benção. Enfim, pensar muito deixa a gente triste.



Si l'on nous offrait l'immortalité sur la terre, qui est-ce qui accepterait ce triste présent ? demande jean-jacques rousseau dans l'emile. Ce livre est l'histoire d'un homme qui a accepté.


Citações




"Nunca a natureza nos mostraria seus segredos; ela não tinha segredos; nós é que inventávamos perguntas e fabricávamos respostas a seguir; e nunca descobriríamos no fundo de nossas retortas senão os próprios pensamentos"




"Quando se vive suficientemente, vê-se que toda vitória se transforma um dia em derrota..."



"Eram homens que queriam realizar seu destino de homem escolhendo sua morte e sua vida, eram homens livres"



"E, a partir da hora em que nasce, começa-se a morrer. Mas entre o nascimento e a morte há a vida."




- É então por desespero que escolhe morrer?

- Não estou desesperado, pois nunca esperei nada.

- E pode-se viver sem esperança?

- Sim, se se possuir alguma certeza."



"Imaginais que algum dia neste mundo possais fazer o bem sem fazer o mal? É impossível ser justo com todos, fazer a felicidade de todos."



O mundo ampliava-se, os homens tornavam-se mais numerosos, suas cidades maiores; conquistavam terras férteis às florestas e aos pantanais, inventavam novos utensílios; mas as lutas faziam-se mais selvagens, nas matanças as vítimas contavam-se aos milhares; aprendiam a destruir ao mesmo tempo em que aprendiam a construir. Dir-se-ia que um deus obstinado se aplicava em manter um imutável e absurdo equilíbrio entre a vida e a morte, entre prosperidade e a miséria.”



O que vale a seus olhos não é nunca o que recebem, é o que fazem. Se não podem criar, precisam destruir, mas de qualquer maneira devem recusar a realidade; do contrário, não seriam homens. E a nós, que pretendemos forjar o mundo por eles e encerrá-los dentro, a nós só nos podem odiar. Essa ordem, essa tranquilidade com que sonhamos, seria para eles a pior das maldições...”



SINOPSE



Um personagem do século XIII, o conde Fosca, desafia o tempo e chega até os dias de hoje questionando tópicos inerentes à natureza humana, tais como a ambição, o poder, a imortalidade, o prazer, o destino e a transcendência. Um ensaio em forma de ficção que realça os absurdos da consciência. Neste trabalho Simone de Beauvoir descreve a vida de um homem imortal, sonhando e freqüentemente afirmado ideal. Mas este romance de projeção mental em que ele mergulha o leitor se refere especialmente ao verdadeiro sentido da vida, que tem valor real por alguns finitude que o caracteriza. Tudo o que faz com que a humanidade e permite que o ser humano a desenvolver e experimentar sentimentos reside principalmente no conhecimento de que o objeto de nosso interesse pode desaparecer, quer através de nossa própria morte ou a sua.