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sábado, 1 de agosto de 2026

Resenha - Lettre à D. (André Gorz)

 

Pois é impossível explicar filosoficamente por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa, excluindo todas as outras”


Um livro sobre o amor. Gostei logo na primeira página. Muito tocante. Texto bonito, curtinho, simples e com belíssimas citações. Escrito como se fosse uma carta, de texto corrido, formando um longo relato da relação entre o autor e sua esposa. Pode ser lido de uma só vez.



É isto: a paixão amorosa é um modo de entrar em ressonância com o outro, corpo e alma, e somente com ele ou ela. Estamos aquém e além da filosofia”



Lettre à D. - Histoire d'un amour é uma ode ao amor. Ganhei o livro de presente do @, após ele ter visto que li “Todos os Homens são Mortais”, da Simone de Beauvoir, já que Goez foi igualmente contemporâneo e discípulo de Sartre.




É preciso aceitar ser finito: estar aqui e em nenhum outro lugar, fazer isto e não outra coisa, agora e não sempre ou nunca [...], ter apenas esta vida”


Surpreso de ter encontrado tradução no Brasil (Carta a D. - História de um amor). Acho que por conta de o autor ser muito conhecido por seus trabalhos nas áreas da filosofia e sociologia. Inclusive esse foi o último trabalho dele. Um texto sobre paixão, militância e uma vida juntos de quase sessenta anos. Fiquei comovido ao terminar a leitura e descobrir que fim teve o autor e sua esposa.



No final das contas, só uma coisa me era realmente essencial: estar com você. Eu não posso me imaginar escrevendo se você não mais existir. Você é o essencial sem o qual todo o resto, importante apenas porque você existe, perderá o sentido e a importância”


André Gorz, Folio, 2009, 96 páginas.


Sinopse em português


Uma das declarações de amor mais conhecidas e emocionantes de nosso tempo, este livro é também uma afirmação comovente de companheirismo entre duas pessoas apaixonadas. "Você está para fazer 82 anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que 45 quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz 58 anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca." Assim André Gorz inicia sua carta de amor a Dorine, mulher ao lado de quem ele passou a vida e que há alguns anos sofria de uma doença degenerativa incurável. Como um dos principais filósofos do pós-guerra francês, Gorz escreveu inúmeros livros influentes, mas nenhuma de suas obras será tão amplamente lida e lembrada quanto esta carta simples e bela, em que ele rememora tanto a história de companheirismo, amor e militância do casal como a trajetória intelectual que percorreram juntos. Um ano após a publicação de Carta a D., um bilhete encontrado na casa onde moravam fez as vezes de pós-escrito à narrativa: André e Dorine tiraram a própria vida juntos, numa renúncia comovente a viver sozinhos.



Sinopse em francês




"Tu vas avoir quatre-vingt-deux ans. Tu as rapetissé de six centimètres, tu ne pèses que quarante-cinq kilos et tu es toujours belle, gracieuse et désirable. Cela fait cinquante-huit ans que nous vivons ensemble et je t'aime plus que jamais. Je porte de nouveau au creux de ma poitrine un vide dévorant que seule comble la chaleur de ton corps contre le mien." André Gorz revient avec cinquante ans de recul sur les années décisives de son histoire. Il restait beaucoup à dire. Car ce n'était pas la sienne seulement. Biographie de l'auteur André Gorz, de son vrai nom Gérard Horst, est né à Vienne en février 1923. Ecrivain et philosophe, il a notamment publié Le traître (1958), préfacé par Sartre, Adieux au prolétariat : au-delà du socialisme (1980), et L'Immatériel : connaissance, valeur et capital (2003). Parallèlement à son oeuvre philosophique, André Gort a poursuivi une carrière de journaliste, à L'Express, puis au Nouvel Observateur à partir de 1981, où il écrivit sous le pseudonyme de Michel Bosquet. Il est mort en septembre 2007.





Citações



«Tu vas avoir quatre-vingt-deux ans. Tu as rapetissé de six centimètres, tu ne pèses que quarante-cinq kilos et tu es toujours belle, gracieuse et désirable. Cela fait cinquante-huit ans que nous vivons ensemble et je t'aime plus que jamais. Je porte de nouveau au creux de ma poitrine un vide dévorant que seule comble la chaleur de ton corps contre le mien»



Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher.”



"Até onde consigo lembrar, eu sempre procurei não existir. Você deve ter trabalhado anos a fio até me fazer assumir minha existência"



"Quando te conheci sabia desde o início que éramos feitos um para compreender o outro"



Quando tudo tiver sido dito, tudo ainda ficará por dizer, sempre restará tudo a dizer, em outras palavras, é-o dizer que importa, não o dito




Que o amor é o fascínio recíproco de duas pessoas por aquilo que elas têm de menos dizível”



Você era o complemento da irrealização do real”



Só uma coisa me era realmente essencial: estar com você. Eu não posso me imaginar escrevendo se você não existir. Você é o essencial sem o qual todo o resto, importante apenas porque você existe, perderá o sentido e a importância.”



"Preciso reconstituir a história do nosso amor para compreender seu significado. Ela foi o que nos permitiu nos tornarmos quem somos, um pelo outro. Escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.”



Você foi a primeira mulher que consegui amar de corpo e alma, com quem eu me sentia em ressonância profunda; meu primeiro amor verdadeiro, para dizer tudo. Se eu fosse incapaz de amá-la de verdade, nunca poderia amar ninguém. Encontrei palavras que nunca soubera pronunciar; palavras para lhe dizer que eu queria que permanecêssemos juntos para sempre. Mas também acho, que veio de um lugar de culpa. ‘Amar um escritor é amar que ele escreva’, dizia você. Então escreva!”’



"Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro. Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos."



"Você me dava acesso a uma dimensão de alteridade suplementar - a mim, que sempre rejeitei toda identidade e juntei uma identidade na outra, sem que nenhuma fosse realmente a minha."



"Eu tinha a impressão de construir com você um mundo protegido e protetor."



"Não tínhamos um lugar assegurado no mundo, e só teríamos aquele que fizéssemos para nós."



"Tinha algo de você em tudo o que você fazia."



"Eu admirava sua segurança, sua confiança no futuro, sua capacidade de captar os instantes de felicidade que se ofereciam."



"Você tinha uma cumplicidade contagiosa com tudo o que é vivo, e me ensinou a olhar e a apreciar o campo, as árvores e os animais. Você descobriu para mim a riqueza da vida, e eu a amava através de você."



"Você me deu toda sua vida e tudo de si; e eu gostaria de poder lhe dar tudo de mim durante o tempo que nos resta."



"O mundo está vazio, não quero mais viver."



Mas nada disso dá conta da ligação invisível pela qual nós nos sentimos unidos desde o início. Por mais que tivéssemos sido profundamente diferentes, mas eu não deixava de sentir que alguma coisa fundamental era comum a nós, um tipo de ferida original”



Você não tinha nenhum lugar que fosse seu no mundo dos adultos. Estava condenada a ser forte porque todo o seu universo era precário. Eu sempre senti, ao mesmo tempo, a sua força e a sua fragilidade subjacente. Eu gostava da sua fragilidade superada, admirava a sua força frágil. Nós éramos, eu e você, filhos da precariedade e do conflito. Fomos feitos para nos proteger mutuamente contra ambos, e precisávamos criar juntos, um pelo outro, o lugar no mundo que originalmente nos tinha sido negado. Por isso, no entanto, seria necessário que o nosso amor fosse também um pacto para a vida inteira.”



Eu estava consciente de precisar de você para encontrar o meu caminho, de só poder amar você.”



Lembro de ter escrito a E. que no final das contas, só uma coisa me era realmente essencial: estar com você. Eu não posso me imaginar escrevendo se você não mais existir. Você é o essencial sem o qual todo o resto, importante apenas porque você existe, perderá o sentido e a importância.”







quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Resenha - Une Valse pour Billie (Carl Norac)

 

Je me suis longtemps contenté du chaos qui me va et du bonheur laissé par d'autres.


Esse ano tentei ler poesia em português várias vezes, sempre com algum grau de dificuldade.
No entanto, é a primeira vez que leio em francês, e acho que de todo meu tempo de leitor, nunca tinha tentado ler outra coisa que não fosse prosa em língua estrangeira.
É muito difícil entender as nuances, os sentimentos, as subtilidades da poesia em outro idioma



Ce que personne ne veut :
être un papier qui brûle.
La nuit est courte comme une chaise.
Je m'y assieds sans ombre.
Devant moi, deux hommes s'enserrent parce que ni l'aube, ni les femmes ne viennent.
La peau de l'un attend de tomber tandis que celle de l'autre se lustre, un visage contre la vitre.
Les paupières des danseurs se donnent toujours aux oiseaux invisibles et leur langue aux fourmis qui descendent des livres de prières.



Une Valse pour Billie, ou uma Valsa para Billie, trata-se de uma leitura rápida, por ser poesia e ter menos de 100 páginas.
Carl Norac entrega um texto delicado, bonito e tocante.
Gostei da experiência e espero poder repeti-la em breve, com um pouco mais de poesia contemporânea antes de passar para os clássicos



ce sont douze voyages sans apôtres des alignements comme on le faisait avec les pierres dans la montagne
tentant de s'élever ensuite de redescendre
l'homme est un puits pour l'homme
avant d'être un chemin



Transeuntes e passagens, outros lugares e limiares estão entre os temas dos poemas de Carl Novac.
Eles evocam a solidão e a complexidade das relações humanas.
O dia a dia e a poesia que existe na rotina.



La rue qui nous sépare ce n'est pas la conscience ni une coïncidence mais un pesant de macadam de pas perdus de fugues arrêtées.
Mieux en face qu'ici
mieux ici qu'en face
éternellement la vie consiste à s'enfuir.



Edition: L'Escampette éditions
Format: 88 p.

SINOPSE




Ce livre est construit comme une pyramide et, pierre à pierre, nous élève vers la lumière. Avec un balancement de la solitude aux relations humaines, comme nous l’indiquent les titres : Passants et passages, Ailleurs et seuils… L'aboutissement aussi d'un voyage vers des voix qui nous traversent, de Cendrars à Walser, d'Hafïz à Billie Holiday.


sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Resenha – Deux sœurs (DAVID FOENKINOS)



Ainda sem lancamento no Brasil, DUAS IRMÃS (tradução literal) lembra muito A DELICADEZA, primeiro romance que li do autor.


Ambas as obras são separadas por um intervalo de publicação de 10 anos (Deux sœurs, Gallimard, 2019 - La Délicatesse, Gallimard, 2009). Apesar disso algumas cenas são descritas de maneira quase idênticas. Infelizmente essa semelhança é, na minha opinião, um ponto positivo.


Foi uma história que me tocou de uma forma muito particular, então levei bastante tempo para lê-la apesar de suas 190 páginas. Digeri com lentidão suas palavras, e várias vezes tive que fechar o livro diante de uma centra um pouco pessoal demais.


Um final chocante, totalmente inesperado, mas que reflete a evolução da personagem principal. Um livro que disseca a alma humana, mostrando o que uma pessoa é capaz de fazer ao ser confrontada com a dor de um amor que chega ao fim.


 

SINOPSE

 

Du jour au lendemain, Étienne décide de quitter Mathilde, et l’univers de la jeune femme s’effondre. Comment ne pas sombrer devant ce vide aussi soudain qu’inacceptable ? Quel avenir composer avec le fantôme d’un amour disparu ? Dévastée, Mathilde est recueillie par sa sœur Agathe dans le petit appartement qu’elle occupe avec son mari Frédéric et leur fille Lili. De nouveaux liens se tissent progressivement au sein de ce huis clos familial, où chacun peine de plus en plus à trouver un équilibre. Il suffira d’un rien pour que tout bascule… David Foenkinos dresse le portrait d’une femme aux prises avec les tourments de l’abandon. Mathilde révèle peu à peu une nouvelle personnalité, glaçante, inattendue. Deux sœurs, ou la restitution précise d’une passion amoureuse et de ses dérives.

 

Durante a noite, Étienne decide deixar Mathilde, e o mundo da jovem desaba. Como não afundar diante deste vazio tão repentino quanto inaceitável? Com que futuro podemos lidar com o fantasma de um amor desaparecido? Devastada, Mathilde é acolhida pela irmã Agathe no pequeno apartamento que ocupa com o marido Frédéric e a filha Lili. Novos vínculos vão sendo gradualmente forjados neste círculo familiar fechado, onde todos lutam cada vez mais para encontrar o equilíbrio. Basta um pouco para que tudo mude… David Foenkinos pinta o retrato de uma mulher que luta contra os tormentos do abandono. Mathilde revela gradualmente uma personalidade nova, arrepiante e inesperada. Duas irmãs, onde a restituição precisa de uma paixão romântica e seus excessos.

 

Sobre o Autor

 

Auteur de nombreux romans traduits dans plus de 40 langues, David Foenkinos est notamment l’auteur de Charlotte, récompensé par le prix Renaudot 2014 et le prix Goncourt des lycéens, et du Mystère Henri Pick. Il a réalisé avec son frère Stéphane Foenkinos une adaptation cinématographique de son roman La délicatesse, avec Audrey Tautou et François Damiens.

  

Autor de numerosos romances traduzidos para mais de 40 línguas, David Foenkinos é nomeadamente o autor de Charlotte, galardoado com o Prémio Renaudot 2014 e o Prémio Goncourt  e de Mystère Henri Pick. Com seu irmão Stéphane Foenkinos, dirigiu uma adaptação cinematográfica de seu romance La Délicesse, com Audrey Tautou e François Damiens.